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Abraham não reconheceu Martin a princípio – não com a minúscula esposa ao acompanhá-lo. Franziu o cenho levemente quando viu o casal aproximar-se.

- É mesmo você – Martin disse. – Há quanto tempo.

Trocaram um aperto de mãos. Abraham voltou sua atenção à mulher japonesa.

- Minha esposa – apresentou Martin. – Akiyo.

- Tive a impressão de que você seria japonesa – Abraham sorriu com o canto dos lábios.

Akiyo retribuiu a apresentação com um cumprimento delicado e suave. Ela agüentava o calor noturno bravamente.

- Então aquela é a equipe? – Martin perguntou.

O restante do grupo vinha unir-se a eles com suas respectivas bagagens em mãos. O que não pudera ser carregados entre os dedos havia sido embarcado num automóvel fretado especialmente para comportar o material da expedição. Parte dele já havia sido entregue em Kerman – para onde seguiriam após Teerã.

- Sim, – Abraham disse. – Meus rebentos orgulhosos.

- Qual delas é a Srta. Hayes?

Abraham olhou para trás.

- Charlotte – chamou.

Charlotte virou-se para encará-lo. Reparou no casal Moreau e se aproximou.

- Martin e Akiyo Moreau – Abraham cumpriu as formalidades. – Nossos lingüistas.

- É um prazer – Charlotte estendeu uma mão.

- O prazer é todo nosso – Martin sorriu, aceitando o gesto.

Foi apresentado aos demais. Os recém-chegados pareciam atordoados pelas horas de vôo – exceto por Ricky, exultante como sempre.

- Bram – Ricky interrompeu. – Não é hora de fazer o comunicado? Você sabe... “o comunicado.”

Abraham não compreendeu imediatamente a questão. Foi lembrado ao perceber que permaneciam no aeroporto com três cabeças femininas descobertas.

- Usem lenços em público – ele alertou. – As pessoas não ligam para o seu tratamento rejuvenescedor de cabelos. Segundo: não é da conta de ninguém se vocês são americanos ou não. Se puderem mentir, melhor. Terceiro: evitem crianças. Evitem crianças que pedem dinheiro. Evitem crianças de qualquer natureza. E estejam sempre – ele frisou. – de olho nas suas coisas. Ricky tem uma história para contar.

- Quando eu era jovem e ingênuo, eu fui assaltado, esmurrado e cuspido no Irã – Ricky revelou. – Não é algo que vocês, moças, gostariam de experimentar. Eu garanto.

- Então não tentem ir a lugar nenhum sem um de nós – finalizou Abraham.

- Eu preciso de guarda-costas também? – Joshua exibiu um sorriso sarcástico.

- Não. Mas não olhe para nenhuma mulher mulçumana.

- Sério?

- Não, eu só gosto de ver a sua reação. É claro que falo sério.

Joshua deu de ombros.

- Não é como se houvesse algo para ser visto, de qualquer forma – disse.

- São como os kilts escoceses – explicou Ricky. – Não têm nada por baixo.

E Ricky encenou o ato de erguer e abaixar uma saia invisível, as pernas bastante espaçadas. Akiyo observou a cena com uma expressão levemente surpresa.

- É melhor irmos – Charlotte decidiu.

- Para onde quer nos enviar? – Abraham perguntou.

- Hotel Laleh – contou a garota. – Foi o melhor que eu consegui.

- Eu não sei como é que você aceitou vir. Está um forno!

Akiyo apenas deu de ombros, ajeitando o lenço que cobria sua cabeça. Para quem já tinha enfrentado os verões abafados de Kyoto - o calor dolorido de auto-clave, seguido por chuvas que pareciam aumentar a sensação térmica ao invés de diminui-la - até que a experiência em Teerã não estava sendo tão ruim assim. Era complicado manter cabeça coberta e roupas fechadas, mas ela resistia com um sorriso estóico - e um lenço.

Martin estava enfurecido com quase tudo - o calor, o vôo extremamente confuso (feito aos soquinhos, como diria Akiyo: de La Rochelle até Paris e de Paris até Teerã com uma escala desgraçadamente comprida em Atenas), a fome que sentia e, irracionalmente, com o lenço que Akiyo fora obrigada a colocar nos longos cabelos pretos. Ela parecia um pouco a segunda esposa de seu pai, a famosa "La Catin" que tinha traído o velho Moreau com metade da Charente-Maritime.

Esticou o pescoço com os braços por um minuto e voltou-se para a esposa.

- Eu não sei mesmo como você aceitou vir.

- Eu queria conhecer esse tal de Abraham - e, depois de curta pausa - Você não queria que eu viesse?

- Claro que sim. Mas fico preocupado. Esse lugar aqui... - e desconversou depressa, com medo de ser pego falando mal do país.

-  Hohoemi tsuzukenasai, ne! - ela disse em voz quase inaudível. Martin traduziu mentalmente a mensagem: "por favor, siga sorrindo".  Akiyo costumava dizer isso quando eles estavam com problemas e ele estava a ponto de explodir em cima de alguém. 

Martin apontou um grupo do outro lado da porta de vidro.

- Aquele ali é nosso grupo. Caramba, como o Abraham tá velho! 

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 Abraham rodava um dos pequenos alfinetes entre o indicador e o polegar. Um mapa gigantesco permanecia estendido diante de seus olhos, sobre a mesa, Ricky a encará-lo do outro lado. Algumas localidades haviam sido devidamente alfinetadas em diversas cores. O Irã – Kerman e as proximidades do Dash-e Lut. O lugar mais quente do planeta.

- Mais alguma coisa? – perguntou Ricky. – Mais algum lugar onde deveríamos estar?

Abraham espetou seu alfinete sobre o Caribe em silêncio.

- Não comece – riu Ricky.

A garrafa de Heineken de Abraham estava vazia. Ele constatou o fato ao girá-la distraidamente, sentindo a leveza incômoda. Era tarde – mas não tarde o suficiente.

- Vai haver uma mudança de planos – Charlotte informou, retornando de sua breve ligação. Devolveu o telefone sem fio ao carregador. – Marque Teerã aí – pediu.

Os três estavam reunidos em Manhattan, no apartamento de Charlotte, para as últimas considerações a respeito da viagem. Ricky trouxera uma lista do transporte necessário, visando diferentes áreas geográficas em que atuariam – se chegassem a tanto. Charlotte comprometera-se a consegui-los. A lista havia sido colada sobre a tela da televisão.

- Por que Teerã? – Abraham perguntou.

- Há alguém que eu quero ver – explicou Charlotte.

Como Abraham meramente mostrou-se pouco impressionado, Charlotte prosseguiu:

- Thierry Mirabeau.

Abraham deu um sorriso leve. Olhou para Ricky em dúvida.

- Thierry Mirabeau – repetiu. O nome não lhe dizia muita coisa.

Ricky deu de ombros.

- Ele é um diplomata – disse Charlotte. – Conhecido do meu pai.

- E é importante?

Mas Charlotte apenas lançou um olhar auto-explicativo ao rapaz.

- OK. Entendi – Abraham concordou. – Teerã, então.

Marcou boa parte do território iraniano com sua própria garrafa vazia.

- Então Ricky vai pilotar – ele recapitulou.

- Eu chamaria Charlotte para ser a co-piloto – Ricky disse. – Mas, infelizmente, ela não tem as horas de vôo necessárias.

Abraham olhou para Charlotte com surpresa.

- Você voa? – perguntou.

- O serviço completo – informou a garota. – Meu pai me ensinou.

- Nate era um ótimo piloto – Ricky pareceu recordar. – Poderia ter sido profissional, mas gostava mais de colecionar hobbies. E era um grande hobby. Um dos favoritos dele.

- Como John Travolta – Abraham assentiu.

- Abraham odeia aviões – sorriu Ricky.

Charlotte pareceu avaliar a questão.

- É mesmo? – quis saber. – Por quê?

- Porque eu sou pré-histórico. Pré-histórico e mal-humorado.

Abraham ergueu-se. Agarrou a garrafa com uma das mãos e o casaco com a outra.

- Onde fica a sua cozinha? – perguntou.

Charlotte tomou a garrafa para si.

- Eu cuido disso, Sr. Macfadyen.

- Não se esqueça da lista – Abraham alertou.

- Não vou.

Abraham vestiu o casaco e olhou para Ricky.

- É melhor eu ir. Amanhã vai ser um longo dia.

Ricky deu um tapa entusiasmado sobre a própria coxa.

- Eu mal posso esperar – deleitou-se. – Espere. Acompanho você – também abandonou sua cadeira.

Tomaram o elevador luxuoso. Abraham recostou-se contra um dos painéis de madeira e soltou um suspiro.

- Está muito cansado? – indagou Ricky.

Abraham moveu a cabeça em direção ao colega.

- Por quê? – perguntou.

 

 

- Mulheres – disse Abraham.

- Mulheres – Ricky concordou. Sugou a cerveja que pedira como se bebesse suco de laranja. O barman convenientemente surgiu para perguntar o que viria a seguir.

Abraham empurrou o próprio copo. Ricky requisitou uma nova cerveja ao erguer o dedo.

- Nós realmente vamos para o Teerã? – perguntou Abraham.

- Vamos – Ricky parecia ver o fato como consumado. – Não se escapa dos Hayes.

Olhou para o copo vazio da Abraham.

- Você ainda tem problemas com essa maldição?

Abraham observou o copo com indiferença.

- Mais do que gostaria – disse. – Mas não quando em serviço – explicou.

- Você agüenta umas boas porradas, não é? – Ricky riu. – O velho e bom Abraham. Vem, vamos ver as mulheres.

As strippers desfilavam com seus biquínis brilhantes e seios desnudados. Ricky batia palmas quando alguma parecia agradá-lo o suficiente. A mulher sorria em retribuição. Insinuava que poderia haver um pagamento mais apropriado do que aclamação.

- Você tem um trocado sobrando por aí? – Ricky perguntou a Abraham.

Mas Abraham ignorou o pedido. Chamou uma das dançarinas com um sinal de dedos. A garota veio engatinhando devagar até o rapaz, transformando cada movimento em um espetáculo para os que demais assistiam.

- Posso me juntar a você? – Abraham perguntou.

A stripper sorriu. Era loira – um dourado possivelmente não natural. Tinha auréolas rosadas e perfeitas.

- Depende – respondeu.

- Do quê?

A stripper colocou-se de pé. Abraçou-se ao poste como se quisesse se proteger – tal qual uma colegial inocente – dos perigos que poderiam cercá-la pelo mundo.

- Você é um bom dançarino? – ela inquiriu.

- Você quer que eu dance com você? – Abraham ergueu as sobrancelhas.

A garota não respondeu, lançou uma mecha de cabelo para trás.

- OK. Eu danço com você – concordou Abraham. Levantou-se e tirou o casaco.

- O quê? – Ricky perguntou. – Não. Não, cara, não faça isso.

Mas Abraham já estava sobre a passarela. Houve vaias imediatas dos outros homens presentes. A stripper loira pareceu deliciosamente encantada e receosa.

- Você tem coragem – disse. – O Peter vai ficar furioso.

- Desça daí, porra – um dos barmen gritou.

Abraham exibiu um gesto ofensivo de cima da passarela.

- Meu Deus, não faça isso – a stripper deu um risinho nervoso.

- Aquele é o Peter?

- Não. Peter é o gerente. Aquele é só o garoto novo.

O barman aproximara-se. Ricky estava de pé antes mesmo que ele pudesse alcançar Abraham.

- O quê? Vai querer brigar? – indagou Ricky. Fazia sombra contra o corpo subitamente hesitante do novato. – Estamos pagando por essa merda.

- É contra as regras – o barman explicou. – É contra as regras – ergueu a voz para Abraham.

- Não seja um cockblocker – Abraham sorriu. – Se quiser me bater, venha até aqui. Junte-se a nós.

Mas o tamanho de Ricky conseguiu espantar o barman – até que ele conseguisse reforços.

- Tudo bem aí em cima? – Ricky perguntou.

- Excelente.

- Bom pra você, cara. Mas agora pare de atrapalhar a minha vista e desça logo. Você vai esvaziar o bar.

Abraham saltou tranqüilamente para o chão.

- Aproveite o que você tem agora – disse. – Você vai para o Irã. Vai experimentar um dos piores regimes já criados pelo homem – olhou de esguelha para Ricky. – E estamos bêbados, se não percebeu.

- Eu sei.

Ricky pareceu refletir.

- Aquelas merdas de burkas. Quanta autonomia vamos ter?

- O que quer dizer?

- O governo vai nos seguir ou algo assim? Porque eu não posso lidar com o governo. Eu estou por aqui com o governo. Foi assim no Quênia. Aquela porra toda.

- O governo estará onde estiver de estar. Vou fazer o possível para nos manter isolados.

- Conto com você.

A stripper loira chamou-os quando deixavam o bar. Ela também parecia encerrar o expediente. Vinha com um casaco de pele artificial cobrindo o corpo pouco vestido.

- Não quer saber o meu nome? – ela perguntou a Abraham.

O rapaz olhou para trás.

- Vai me contar?

- Starr.

Abraham deu um sorriso.

 - Estou chocado.

- Não como em estrela brilhante. Starr. Como Ringo Starr. Carla Starr. Mas alguém achou que só Starr era um bom nome artístico. Eu danço bem?

- Eu dou nota dez para você – Ricky afirmou.

Starr sorriu.

- Vocês dois podem voltar quando quiserem. Não liguem para o novato. Já aconteceu coisa pior por aqui.

- Starr, se conseguirmos retornar do nosso trabalho incrivelmente perigoso e excitante – Abraham começou. Abriu a porta do carro alugado. – eu prometo que trago um buquê de flores para você.

Abraham escondeu as evidências de uma noite agitada com um par de óculos escuros. Ricky parecia intocado – a imagem do vigor. Discutia animadamente com Charlotte a respeito do avião. Era um jato Lineage 1000. Charlotte parecia orgulhosa, como se olhasse para um rebento.

- Ele é virgem, Ricky – contou.

Ricky soltou um assobio impressionado.

- Vai gostar dele, Bram – disse.

- Não me desestimule, Richard – Abraham, os braços cruzados, aguardava pelos demais.

Baixou levemente os óculos ao avistar Joshua aproximando-se.

- Aí está você – Abraham cumprimentou o rapaz.

- É mesmo um jato – Joshua ergueu os olhos para o avião. – Fantástico.

- Joshua – Charlotte empurrou uma prancheta em direção ao rapaz. – o que são as duas caixas misteriosas que você embarcou?

Joshua hesitou.

- Coisas pessoais – respondeu.

- Eu espero que não seja uma bomba.

- Mas é claro que não – o rapaz riu.

Charlotte não parecia convencida.

- Escutem, – ele começou. – eu me demiti por causa de vocês, certo? Meu emprego completamente estável. Tenham um pouco mais de fé.

- Deixe o garoto, Charlotte – Abraham riu.

A garota considerou com um sorriso maldoso.

- OK – consentiu.

Quando Charlotte afastou-se, Joshua sussurrou a Abraham:

- Essa coisa parece cara demais. Vamos ter strippers a bordo, a la Tony Stark?

- Por favor, não mencione...

- O quê?

- Apenas não mencione – Abraham pediu.

 

 

Eric apareceu ofegante acompanhado de um funcionário do aeroporto. Charlotte sorriu ao vê-lo.

- Garoto da Cozinha! – fez ela, ao abraçá-lo com força. – Achei que você não chegaria a tempo.

- Eu tinha que me despedir – Eric sorriu, ainda sem fôlego. – Afinal, quem sabe se você volta. Minha mãe nunca vai te perdoar por ter escondido isso dela. Ela não vai me perdoar, também.

Charlotte abriu um sorriso.

- Eu volto. Você tem a minha palavra. Dolores vai entender – disse, e, em seguida, se corrigiu. – Bem, ok, ela não vai. Mas ela vai nos perdoar.

- Veremos – fez ele. – Por favor, mande notícias.

Ela assentiu, e se afastou dele.

- Tchau, Eric.

 

 

O interior do Lineage era impecável. A tripulação mostrou-se pequena e atenciosa. Uma aeromoça serviu uma taça de champagne a Joshua. O garoto agradeceu com um aceno educado.

- Isso é muito melhor do que eu imaginava – disse.

Abraham isolara-se completamente. Não percebera ainda estar usando os óculos escuros quando se recostou à poltrona generosa. Audrey passou pelo corredor.

- Eu devo dizer – ela quebrou o silêncio. – O champagne foi um toque de gênio. Se eu ainda não estivesse convencida, me convenceria agora. Foi o que sobrou da lua de mel?

- Desculpe. O quê?

- Bem. Os jornais falaram a respeito.

Audrey indicou Charlotte à distância. A garota era parcialmente vislumbrada na cabine de comando – conversando com Ricky e com o co-piloto.

- Charlotte Hayes e Nick Brandon.

- Eu não faço idéia – Abraham balançou a cabeça. – Pergunte a ela.

- É claro que não – Audrey riu, bebendo de sua taça. Rumou à poltrona escolhida. Sentava-se ao lado de Joshua.

- E você é? – perguntou Audrey.

- Joshua Hall – ele apresentou-se. – Você é a geógrafa, não é?

Audrey deu um sorriso cândido.

- Quem diria que seríamos tratados com champagne? – Joshua perguntou.

- Eu sei – concordou Audrey. – Eu sei.

Taylor Christensen ocupava uma poltrona adiante. Usava um par de fones de ouvido e parecia haver apagado completamente, cochilando em silêncio. Charlotte dispensou-lhe um breve olhar enquanto caminhava, pelo corredor, até onde Abraham estava.

- O lingüista foi avisado sobre a mudança de roteiro? – ela perguntou. – O Sr. Moreau?

- Martin – Abraham simplificou. – Sim. Ele vai nos encontrar em Teerã.

- Bom.

- Ficou decepcionado por precisar pegar um vôo comercial quando nós vamos de jato particular.

- Lineage 1000.

- Você não vai conseguir me impressionar.

Abraham abriu o livro que carregava consigo. Era uma cópia de Harry Potter. Pensou ter encontrado sossego mínimo; então, de repente, a voz de Ricky ecoou pelo avião:

- Senhoras e senhores, apertem seus cintos. Nós vamos partir.

Abraham espiou de esguelha a janela próxima a si.

- Não se preocupe – disse Charlotte.

- Não vou.

Mas apertou levemente o braço da poltrona quando o avião começou a se mover.

 

 

- Acorde – ouviu a voz de Joshua. – Acorde, droga – ele demandou.

Abraham abriu os olhos. Estava alerta e ofegante.

- O quê? – perguntou. – O que aconteceu?

Joshua observava-o com estranheza.

- Você está bem? – quis saber.

Abraham endireitou-se sobre a poltrona onde a adormecera. Notou que o céu a esperá-lo do lado de fora era noturno.

- Sim. Estou bem – garantiu.

- Eu acho que estava tendo um pesadelo – Joshua disse. – ou algo assim.

Certificando-se de que Abraham estava inteiro, ergueu-se para retornar ao próprio assento.

- Eu disse alguma coisa? – Abraham perguntou.

- Você disse uma porrada de coisas – Joshua riu. – Já nem sei mais se é seguro estar com você por perto.

- Eu...

- Está tudo bem. Sério. Eu estava brincando.

Audrey e Taylor observavam o rapaz de longe. Abraham suspirou e desviou-se do olhar dos demais, apoiando a cabeça sobre o vidro da janela. Viu Charlotte chegar com um copo e um comprimido.

- Pegue – ela mandou.

Mas Abraham apenas a encarou.

- Vamos – insistiu Charlotte. – Ricky disse para lhe dar isso, caso algo acontecesse.

- Ele especificou o algo? – Abraham indagou.

Pegou o comprimido, mas dispensou a água; então, refletindo, aceitou o copo. Tomou a água de uma única vez.

- Obrigado – agradeceu.

- De nada.

Charlotte não parecia incomodada.

- Quanto tempo? – Abraham perguntou. Charlotte não reagiu. – Para chegarmos.

- Quatro horas – ela contou.

- Irã pela noite – ele riu. – Ficarão decepcionados.

Foi lembrado de um detalhe indesejável.

- Você e as outras garotas vão precisar tomar cuidado com o que vestem.

- Eu sei.

- Eu falo sério, Charlotte.

Charlotte ergueu as sobrancelhas.

- Eu também falo. Não precisa se preocupar.

Abraham esfregou os olhos. Agora Charlotte parecia observá-lo com um olhar mais preocupado.

- É melhor eu voltar a dormir – Abraham declarou.

- Acordo você quando chegarmos – a garota prontificou-se.

Charlotte não parecia conseguir ficar parada. Abraham sabia que ela iria à cabine para depois retornar. Vinha fazendo o mesmo percurso havia muito tempo – pelo menos até o momento em que Abraham simplesmente desaparecera.

- Vai ser difícil controlar você – Abraham sussurrou para si mesmo. Suspirou e fechou os olhos.

 Sentada em frente ao notebook, Audrey conferia os dados da última pesquisa de campo com o imenso relatório que acabara de escrever, sobre impactos ambientais na construção de um novo mega-complexo de prédios. Estava tudo certo. Passou a mão pelos cabelos curtos cor de mel, bagunçando-os, pegou a caneca vazia ao lado do computador e seguiu para a cozinha. Espreguiçou-se no caminho, já trabalhava naquilo desde que chegara em casa, queria ter o fim de semana livre. 

Não era comum levar trabalho para casa, mas esse relatório precisava estar pronto na segunda, e, ao invés de ficar trabalhando até tarde em sua sala claustrofóbica e monótona, decidiu levar os dados para casa. Pelo menos poderia colocar uma roupa mais confortável, música alta e café decente. O café do trabalho tinha gosto de meia velha, além de ter cinco vezes mais açúcar do que uma pessoa normal acharia aceitável.  

Olhou para o relógio da cozinha, já eram 3:30h. Abriu a geladeira. Vazia, exceto por garrafas de cerveja e água. Deveria ter passado no mercado depois do trabalho, mas como queria se livrar logo da carga extra, acabou dirigindo-se para casa e esqueceu-se do tempo e da fome. Mas agora seu estômago lhe avisava que já estava há quase 12h sem comer. Praguejou qualquer coisa, vestiu uma roupa mais apresentável para sair na rua, colocou um casaco por cima e seguiu para a lanchonete 24h que ficava a duas quadras de casa. 

Era um lugar bastante iluminado, o que fez seus olhos doerem.  Apesar do horário, o lugar estava com vários clientes, então Audrey seguiu direto para o balcão, queria colocar qualquer coisa no estômago o quanto antes. Deu uma olhada rápida nos salgados da vitrine e pediu à atendente um croissant grande recheado com queijo e tomate e um suco de morango. A mulher, que sorria amigavelmente, perguntou se queria outra coisa. 

- Não, obrigada. - Respondeu, já começando a comer o croissant. Mas depois pensou melhor. Não teria o que comer de manhã. Voltou-se para ela e disse, logo depois de engolir - vocês tem algo pra viagem? 

-Sim, senhora! Todos os doces e salgados da vitrine podem ser levados para viagem. E também todos os sanduiches do cardápio. - A atendente falou ainda sorridente. Audrey reparou que seu sorriso tinha alguma coisa de alterada, mas não sabia dizer exatamente o quê. 

- Muito bem, eu quero... - mordeu outro pedaço do lanche - esse sanduiche divertido. 

- Esse é para crianças, senhora. - Explicou a atendente.

- Não importa, eu fico com ele. Parece apetitoso. 

- Sim, senhora. Deseja mais alguma coisa?

Audrey olhou para o croissant já pela metade. Ainda tinha fome. 

- Quero outro croissant desses. E a conta, sim? 

- O pagamento é ali no caixa, senhora. - A mulher indicou o caixa e entregou o croissant, juntamente com o suco e a ficha que continha os itens do pedido. Audrey pagou e sentou-se numa mesa para duas pessoas, terminando de comer enquanto esperava pelo seu futuro café da manhã. Os olhos estavam quase fechando. Cochilou momentaneamente, foi acordada pela mesma mulher a quem tinha feito os pedidos, ela estava lhe entregando o pacote com seu sanduiche e um bonequinho de coelho. 

- O que é isso? - Perguntou Audrey, olhando o bonequinho.

- É o brinde, senhora! - A mulher respondeu, o sorriso ainda mais afetado. 

- Ah, certo. Bem, obrigada. - Falou, levantando-se.

-Volte sempre, senhora.

Meteu o boneco dentro da bolsa e seguiu para casa. Já podia ver sua cama macia chamando-a. Tirou os sapatos já  na sala, jogando-os de qualquer jeito pelo chão, o casaco por cima do sofá. Largou o saco com seu sanduiche em cima da mesa da cozinha e jogou-se na cama com a mesma roupa que tinha saído. Instantes depois já estava dormindo e sonhando. 



Audrey acordou ao som de "I'd rather dance with you", o toque do seu celular. Grogue, pegou o aparelho na mesa de cabeceira e atendeu, a voz típica de quem estava dormindo. 

-Alô?

-Audrey? - A voz do outro lado parecia meio incerta se tinha mesmo ligado para o número certo. 

- Sim, esse é o meu número. - Bocejou - Quem é? 

- Aqui quem fala é Abraham. - Como ela não esboçou nenhuma reação, adicionou - Abraham Macfadyen. Arqueólogo, eu...

- Ah! Claro! Abraham! - Audrey agora soou mais desperta - Desculpe, é que você me acordou. O cérebro ainda está meio lento. Mas então, já faz bastante tempo que eu tive notícias suas. O que o faz me ligar assim, de repente? 

- Bem, tenho um assunto para tratar com você, mas eu preferiria não falar disso pelo telefone. 

- Hm. Já que é algo assim tão repentino, suponho que seja a respeito de uma expedição?

Ele ascentiu.

- Certo, podemos nos encontrar para o café da manhã e aí conversamos.

- Dado o horário, acho melhor nos encontrarmos para um almoço. 

- Que horas são? - Audrey perguntou, já checando o relógio de pulso que não tirara para dormir - Meu Deus, 12:40h! Não achei que fosse dormir até tão tarde. Almoço está bem, então! Alguma preferência de lugar?

Abraham passou as coordenadas do local e ficaram de se encontrar lá dentro de 1h. Tempo suficiente para tomar um banho e chegar lá despreocupada. Olhou de soslaio o saco do sanduiche que tinha comprado na noite anterior. Resolveu comê-lo. Uma expedição, pensou, com o sanduiche na boca, enquanto despia-se. Ponderou que tipo de proposta Abraham teria para ela. Empurrou o resto do sanduiche na boca e entrou no banho.






Audrey chegou no restaurante indicado. Era um lugar bem aconchegante, com algumas árvores fazendo as vezes de corredor até a entrada. As paredes e o chão eram de tábuas de madeira, a decoração era rústica. Vasculhou rapidamente o ambiente até localizar Abraham já sentado em uma mesa no canto, próximo da janela, um copo de cerveja na sua frente. Ela seguiu até ele e o cumprimentou.

- Esperou muito?

- Cheguei tem uns 10 minutos. Cabelos curtos agora? - Ele comentou, bebendo um gole da cerveja. 

- Resolvi mudar um pouco. Gostei do lugar. - Ela respondeu olhando o ambiente. Puxou a cadeira em frente a Abraham e sentou-se. 

- Gosto daqui, não tem gente demais. Além do mais, é perto de onde eu estou. 

A garçonete os interrompeu.

- Gostariam de fazer o pedido? A sugestão do chef pra hoje é salmão ao molho de ervas. É muito bom! Se os dois pedirem, tem desconto de casal. 

- Não somos um casal - Abraham explicitou para a garçonete. 

- Mas aceitamos o desconto. - Audrey complementou, sorrindo. - E eu quero um chopp, por favor. 

A garçonete ascentiu e seguiu para a cozinha. 

- Continua pão-dura, então? - Ele comentou, diante da atitude dela, que deu de ombros. 

- Não sou pão-dura, apenas acho que não precisamos gastar dinheiro que não precisa ser gasto. E você come qualquer coisa. E salmão é bom. 

Abraham suspirou. 

- Bem, vamos ao assunto, então. Lembra-se de Nathaniel Hayes?

- Claro, quem não se lembraria! Ele era a estrela do mundo da arqueologia. Não me diga que isso é outra expedição de busca pelo corpo dele? - Ela falou, apoiando o rosto com a mão. 

- A filha dele está querendo continuar a busca que ele fazia quando morreu. 

Audrey arregalou os olhos. 

- Uau! Não sabia que a filha dele era do meio. - Ela falou em tom de surpresa.

- Não é, ela é médica. - Abraham disse simplesmente.
 
- Bem. Então eu suponho que vocês estejam precisando de uma geógrafa e geóloga para a expedição. 

- Você está disponível? Sei que está trabalhando para o governo. 

- Ora, eu posso estar disponível. Depende de quanto estamos falando. Meu trabalho para o governo é bem flexivel. Além disso, estou lá mais pela grana e pelos contatos. 

- Tem uma caneta? - Audrey fuçou na bolsa e entregou-lhe uma caneta esferográfica preta. 

Ele pegou um guardanapo e anotou uma quantia, arrastou-o pela mesa até ela. 

- Não precisa responder agora. - ele adicionou, quando o papel estava nas mãos dela.

Ela olhou o valor e abriu um largo sorriso. 

- Ora, estou disponível, sim! 

- Você sabe que não vai ser algo exatamente fácil ou seguro. 

Ela o olhou com ar de surpresa e interrogação.

- Querido, por esse dinheiro eu iria numa expedição ao inferno. - Disse e depois riu. - Quando partimos?

A garçonete chegou então com os pratos. 

- Semana que vem. 

- Perfeito! - Falou, já dando uma garfada no prato. 

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O bed & breakfast era agradavelmente silencioso. Estava localizado próximo da praia – não necessariamente a paragem predileta de Abraham. A recepção tinha um pequeno móvel coberto por conchas pintadas à mão; era possível sentir o cheiro imaginário de maresia que emanavam. O lugar pertencia a uma senhora simpática. Possuía cabelos tingidos de um tom loiro muito claro. Usava um pequeno avental que poderia ter sido herdado de Tasha Tudor.

- Seu quarto está pronto, Sr. Macfadyen – ela sorriu. Entregou uma chave cujo chaveiro de madeira esculpida simulava uma pinha.

Guiou Abraham até o andar de cima. O quarto estava envolto por papel de parede discretamente florido. Abraham largou a pouca bagagem sobre o chão.

- Qualquer coisa, pode chamar por mim – disse a senhora. – Ou o Boyd. O Boyd fará tudo que pedir.

Tomar um banho foi a primeira escolha de Abraham. Encheu a banheira – não havia um chuveiro – com água quente. Não tivera ciência do próprio cansaço até mergulhar para dentro, apoiando a cabeça sobre a borda. Fechou os olhos e teve a sensação de cochilar por alguns segundos. Despertou com o nome Hayes na cabeça.

As fotos de Nathaniel. Abraham ligou o notebook tão logo abandonou o banheiro. Joshua arquivara os documentos em uma pasta oportunistamente chamada ‘EU AVISEI.’ Abraham reconheceu as fotos que vira em Amagansett – e muitas outras.

- O que você estava fazendo, Nate? – Abraham soltou um suspiro impaciente. Sentia a toalha e seu próprio corpo molhando a superfície macia da colcha da cama. Era tentador demais simplesmente desfalecer sobre ela.

Ele prosseguiu passando as fotos. Reconhecia a paisagem como alguma localidade africana. Não uma que houvesse visitado. O que Nathaniel decidira fazer na África? Cronologicamente, Abraham identificava-as – as fotografias – como tendo sido tiradas alguns meses antes do desaparecimento em Lut. Não encaixava a viagem.

A vigésima sexta foto revelou algo diferente: não havia paisagem longínqua. Apenas uma pedra. A superfície da pedra parecia gravada. A iluminação não facilitava tanto a identificação – mas Abraham conseguiu reconhecer o desenho de uma espiral.

Não havia palavra de Martin a respeito acompanhando os arquivos. Abraham tentou caçá-lo online. Como Martin parecia haver desaparecido, enviou um e-mail suficientemente curto:

 

Espirais na pedra. O que significam?

 

Ainda fitou o círculo até que a imagem começasse a se tornar incômoda. As fotos seguintes focavam-se na mesma pedra: sob ângulos diversos. Então, de repente, paravam. Abraham estava de volta ao acampamento. As fotografias voltavam a parecer desconexas. Uma fogueira apagada. Um par de sapatos. Uma trilha que acabava em árvores aglomeradas. Papéis diversos – nada que pudesse ser lido àquela distância. Papéis com espirais desenhadas. Inúmeras espirais sem fim. Um braço humano entrecortado pelo plano da fotografia. Um acampamento.

Nathaniel ao fundo.

Abraham arregalou levemente os olhos. Era Nathaniel. Distraído – pego por acidente pela fotografia. Encarando algo de seu interesse. Outra pessoa havia tirado a foto.

Abraham direcionou um e-mail ao Professor Singh:

 

Detalhes sobre os arquivos que Martin Moreau enviou.

 

Nathaniel parecia sorrir como um fantasma distante. Estava levemente barbado. Parecia – embora Abraham não pudesse especificar com precisão – exausto.

O rapaz desligou o notebook. Não poderia lidar com aquilo no momento. Abandonou a máquina sobre a escrivaninha, mas ficou a fitá-la mesmo no escuro. Era uma situação menos problemática do que parecia agora. Pensaria com clareza quando a manhã viesse.

Se a manhã viesse com alguma rapidez.

Abraham sentia-se incapaz de pegar no sono quando deitou a cabeça sobre o travesseiro. Ainda estava molhado.

Via as repetições de fotografias repassadas dentro de sua cabeça como se houvesse formado um elo sobrenatural com o computador. Mata; mata; espirais; espirais; espirais; pedras; Nathaniel.

 

 

Em seu sonho – ou pesadelo – Abraham ainda tinha dez anos de idade. O calor africano se misturava com o frio natural do Michigan. Estava parado em sua clareira. A água da chuva jamais secaria. Suas roupas encharcadas grudavam – pesavam.

- Já que é assim – Abraham admitiu a si mesmo.

 

 

- Por que não fiquei sabendo antes? – Abraham explodiu num tom acusatório. Renata – que passava distraidamente pelo corredor – quase deu um pulo. Abraham notou-a com o canto dos olhos. – Me desculpe. Não é com você.

Ela assentiu e partiu em silêncio. Laurence, sentado, não parecia realmente chocado. Sua testa estava enrugada em uma expressão que poderia tanto ser de descaso quanto de remorso.

- Eu sinto muito, Abraham – disse.

- Quantas pessoas viram as fotos?

- Singh, eu e a polícia – e você, é claro.

- O que a polícia disse?

- Descartaram. Houve uma busca rápida pela África, mas por razões óbvias, não foram onde concentraram as equipes de resgate. Havia a pequena possibilidade de que Nathaniel pudesse ter sido seqüestrado por alguma milícia. Mas, o que quer que ele tenha decidido fazer na África, não durou o bastante.

- Por que ele enviaria as fotos?

- Ele queria que Singh desse uma olhada nos círculos que achou – e Laurence desenhou círculos infinitos com o dedo indicador. – As espirais.

- Singh não me disse nada a respeito.

- Porque não achou nada a respeito. Ele não acha que as espirais tenham sido realmente relevantes. O fato é – ele lançou um olhar sério a Abraham. – que discutimos por um bom tempo se deveríamos lhe enviar as fotos ou não. Achamos que talvez pudesse atrapalhá-lo, e não ajudá-lo.

- Bem...

- Eu sei.

- Foi um pouco incômodo precisar exibir as fotos aos outros.

- Charlotte viu?

- Não o bastante para perceber do que se tratavam.

- Deve mostrá-las a ela.

- Eu sei. Mas prefiro não fazer em público.

- Renata, você pode vir – Laurence chamou. – Ele não vai morder – e voltou seus olhos para Abraham. – Como é a equipe?

Abraham deu de ombros. Renata apareceu com um pano de cozinha entre os dedos. Parecia confusa e hesitante.

- Querem beber alguma coisa? – perguntou. – Ou vocês dois vão brigar?

- Eu vou me comportar – garantiu Abraham.

- Ele é normalmente assim – Laurence sorriu. – Não se preocupe.

- Eu aceito uma cerveja – disse Abraham.

- Coors? – perguntou Renata.

- O que existir dentro da geladeira.

Renata assentiu e voltou à cozinha.

- A equipe é peculiar – prosseguiu Abraham.

- Você chamou Martin?

- Sim. A esposa dele também vai participar.

- Martin se casou?

- É o que tudo indica.

Renata retornou com uma garrafa gelada e um copo. Abraham ignorou o copo.

- Obrigado – agradeceu, tirando a garrafa aberta das mãos da moça. Renata observou com espanto Abraham virar a cerveja como se bebesse água.

- E o senhor, Sr. Hamlin? – perguntou.

Mas Laurence fez um sinal como a indicar que estava servido.

- Charlotte é muito difícil de ser convencida?

- Não – respondeu Abraham. – Ela aceita minhas sugestões. Mas acredito que seja mais um mérito seu do que meu – Abraham refletiu. – Ela cometeu um erro.

- Qual?

- Chamou alguém que eu não aprovo e não sei se pode ser confiável.

- Conheço a pessoa?

- Taylor Christensen.

Laurence franziu o cenho em dúvida.

- Provavelmente não sabe quem é. Eu a conheci – de nome – enquanto estava com o professor Gianopoulos. Parece que ela e um grupo vinham realizando pequenos trabalhos ilegais na área.

- Mercenários?

- Mercenários – Abraham confirmou.

- Por que Charlotte decidiu chamá-la?

- Você não acreditaria – Abraham deu um sorriso maldoso.

- Experimente.

- Parece que ela foi uma das bolsistas de Nate.

Laurence pareceu incrédulo.

- Verdade?

Sua surpresa não durou o bastante.

- Bem. Partiria o coração de Nate – presumiu.

Ele consultou o relógio.

- Boa coisa em que decidi convocar Charlotte, então.

Abraham quase engasgou com seu resto de bebida.

- Charlotte? – indagou. – Charlotte está vindo?

Laurence confirmou com um aceno casual de cabeça. Abraham estreitou os olhos.

- Era com ela que estava falando quando eu cheguei – acusou.

- Viso o melhor interesse de todos.

- Calculista.

- Ora, Abraham – Laurence riu. – O roto não pode falar mal do esfarrapado.

Abraham deixou Laurence sozinho e rumou à cozinha. Atirou sua garrafa de cerveja no lixo. Renata fez uma careta.

- Isso é reciclável – disse.

Abraham ergueu os olhos para encará-la.

- Estou escondendo evidências.

A empregada não pareceu se convencer. Abraham escutou o motor de um carro enquanto voltava para a sala. Laurence estava de pé – mãos nos bolsos – aguardando. Qualquer que pudesse ser sua preocupação com Charlotte, Abraham pensou, parecia ser sincera. O próprio Laurence abriu a porta.

- Aí está você – disse para alguém que Abraham não enxergava.

Quando Charlotte cruzou a porta, porém, encararam-se instantaneamente. Charlotte deu um leve sorriso receptivo.

- Já conhece Abraham – Laurence disse. Fechou a porta.

- Não imaginei que estaria aqui – admitiu Charlotte.

- Eu sei. Posso dizer o mesmo.

- Charlotte, o que achou da equipe que – e Laurence encarou Abraham. – Abraham escolheu tão cuidadosamente? – voltou a olhar para a garota. – Sente-se, por favor.

- Professor? – ouviram a voz de Renata.

A garota estava parada como um espírito vigilante.

- A visita vai querer beber alguma coisa?

Laurence fitou Charlotte em silêncio.

- Bem – Charlotte hesitou. – Cerveja, eu acho.

Renata não pareceu entusiasmada.

- Também vai esconder evidências? – perguntou. – Porque eu posso trazer um copo.

- O quê?

- Coors? – a empregada ofereceu.

- Coors está bem.

Charlotte retirou o casaco que vestia enquanto Renata desaparecia uma vez mais da vista dos outros.

- Quer saber sobre a equipe? – Charlotte perguntou.

- Eu adoraria – Laurence sentara-se.

- Eles parecem bons. Competentes. Eu já conhecia Ricky, é claro.

- Richard Morelli – Abraham explicou a Laurence.

- Sei – o professor refletiu. – O bruto com um coração.

Renata trouxe a cerveja Coors e um copo. Charlotte bebeu em silêncio, diretamente da garrafa.

- Joshua Hall. Suposto gênio da informática – ela continuou.

- Terrivelmente novo – decidiu Laurence.

- Abraham parece confiar nele.

- Joshua tem o currículo que eu procuro – disse Abraham. – Não se intrometa nisso.

- Ainda assim é novo demais. E não tem experiência nenhuma na área, o que torna tudo mais perigoso.

- O que Joshua exercer vai deixá-lo fora do epicentro de riscos. O trabalho duro vai ser meu, Laurence.

- E a garota que você mencionou?

Abraham e Charlotte entreolharam-se em silêncio.

- Taylor – Abraham nomeou. – Sim. Ela também é arqueóloga.

- Então vai dividir o dito trabalho duro com ela? Supondo que encontrem alguma coisa.

- Sim – Abraham admitiu a contragosto.

- Ouvi dizer que ela é problemática – Laurence relanceou Charlotte.

Charlotte apoiou o queixo sobre um punho.

- Bem. O currículo dela é impecável.

- Confia nela?

Charlotte pareceu ponderar a respeito da pergunta.

- Costumava – respondeu com sinceridade. – Mas muita coisa aconteceu. O que eu sei é que ela gostava do meu pai. Ela foi uma das bolsistas do instituto.

Laurence absorveu a informação como se houvesse escutado-a pela primeira vez.

- Entendo.

- Abraham não aprova – Charlotte disse. – Mas estou vendo que, pela cara de vocês dois, ele já te contou.

- É só uma defesa natural que eu tenho contra mercenários.

- Ela está sendo suficientemente paga para não causar nenhuma merda catastrófica – Charlotte explicou.

- Acha que ela está fazendo isso pelo seu pai? – indagou Abraham.

- Talvez. Mas não importa. Eu não vou vender o que quer que a gente descubra para quem simplesmente oferecer mais dinheiro, e a Taylor sabe disso.

Laurence encarou Abraham sem dizer palavra.

- Faremos como quiser – o rapaz concordou.

- Ótimo.

Embora Laurence houvesse cedido, era difícil saber até que ponto ele aprovava a situação.

 - E nos resta? – perguntou.

- Um geógrafo. Uma geógrafa – Abraham corrigiu-se.

- Já tem em mente alguém?

- Sim. Audrey Shellden.

Laurence demonstrou achar a escolha curiosa.

- Cuidado. Ela é cria do governo.

- Ela prestou bons serviços ao Professor Gianopoulos.

- É o que me preocupa – e Laurence sorriu.

Uma possibilidade mais séria pareceu lhe ocorrer.

- É importante que essa expedição seja moderadamente sigilosa – ele alertou.

- Alguém quer roubar nosso momento de glória? – Charlotte perguntou.

- É possível. E, depois, não imagino que você queira atrair a atenção da imprensa, Charlotte.

A garota ficou subitamente muda.

- Vou tomar conta de todos nós – Abraham garantiu.

 

 

Foi emboscado por Charlotte quando abria a porta do carro. Ela não parecia muito feliz.

- O que estava fazendo? – quis saber.

Abraham não entendeu.

- Seja mais explícita – pediu.

A brisa do mar soprava irritantemente sobre os cabelos deles.

- Queria que Laurence me fizesse desistir da Taylor?

- Não, Charlotte.

- Eu já sei que não aprova minha opinião.

- Não vou jogar isso na sua cara. Não se preocupe.

Pretendia entrar no carro, mas Charlotte prendeu a porta do automóvel com o pé. Abraham trincou os dentes diante daquele gesto.

- Escute, você é a patrocinadora. O dinheiro está em suas mãos. Pode despedir todos que eu chamei, se quiser. Pode contratar mil Taylors.

- Não vou fazer isso.

- Não?

- Não. Porque eu confio em você – Charlotte erguera levemente o tom de voz. A frase implicava que ela não acreditava que o sentimento pudesse ser recíproco.

Abraham suspirou.

- Eu não já questionei sua decisão. Se acha que ela é a correta, então também confiarei em você – disse.

Charlotte ficou em silêncio.

- Taylor Christensen nem mesmo parece acreditar na possibilidade de encontrarmos alguma coisa.

- Você acredita? – Charlotte inquiriu.

Era uma pergunta traiçoeira. Abraham encarou-a brevemente, medindo o que Charlotte queria ouvir.

- E não me pergunte se é importante – Charlotte avisou. – Porque é claro que é.

- Você acredita?

Charlotte não pestanejou.

- Eu preciso. Ou não faria o que estou fazendo, não é?

Abraham achava improvável que Charlotte houvesse iniciado toda aquela cadeia de eventos por uma coroa. Era a memória de Nathaniel falando através da filha. Havia uma centelha minúscula de esperança no olhar da garota que entregava sua expectativa de trazer o pai de volta – ou parte dele.

- Eu acredito se você acreditar – disse Abraham.

- Eu acredito – Charlotte garantiu.

Fez uma pausa. Abraçou o corpo como se tentasse escapar da brisa fria.

- Você sabe...

- Sim?

- Não é bom pensar que meu pai não voltou por causa de algo que nem mesmo existia.

- Olhe. Seu pai, Charlotte... – Abraham começou. Interrompeu-se brevemente – Seu pai... tinha faro para certas coisas. Ele geralmente estava certo.

- Geralmente.

- É o melhor que todos no ramo podem fazer.

- Você está geralmente certo sobre o que faz?

- Não. Eu estou sempre certo.

Charlotte aceitou a promessa; deu um passo para trás – indicando que permitiria que ele partisse.

- Talvez eu ligue para você mais tarde – ameaçou.

Abraham observou-a retornar para a casa de Laurence antes de fechar a porta e ligar o motor.

 

 

Abraham inspecionou o aposento com curiosidade. Parecia preparado para abrigar conferências de pequeno porte. Imaginava por quanto tempo Charlotte deixara a sala em desuso. O lugar parecia impecavelmente limpo – talvez uma ordem de última hora.

- Você precisa de ajuda? – Charlotte perguntara.

- Não – Abraham respondera. – Tudo sob controle. Só me avise quando a caravana da coragem chegar.

- Você quer dizer a equipe de especialistas caríssimos escolhida a dedo por você?

Mas Abraham apenas encarou a garota.

- Não tente ser engraçada – avisou.

Charlotte deixou-o a sós com um sorriso leve. Abraham estava sentado, observando com particular compenetração o teto, quando a garota retornou. Trazia Joshua Hall consigo. O rapaz vinha com o que parecia ser maquinaria pesada sob um dos braços. Não estava contente.

- Trouxe o que me pediu – Joshua resmungou.

- Obrigado – Abraham levantou-se. – Joshua, esta é Charlotte Hayes.

- Eu sei. Ela se apresentou – Joshua pousou o projetor que carregava sob uma mesa. Estendeu a mão para Charlotte. – Eu sou Joshua Hall. Muito prazer.

Charlotte aceitou o gesto.

- Queria dizer que é um prazer trabalhar para você – Joshua completou. – A oportunidade é magnífica.

- Joshua – disse Abraham. Conectava os fios do projetor distraidamente. – Não trabalha para ela. Trabalha para mim.

- Quem está pagando? – Joshua perguntou.

A questão pareceu pegar Abraham de surpresa.

- Charlotte – ele consentiu.

- Portanto...

- Apenas faça o que eu pedir.

- Para que precisa de mim? Além de para carregar coisas, é claro.

- Você vai mediar uma vídeo-conferência.

Abraham entregou um laptop fechado a Joshua.

- Seja cuidadoso com ele – Abraham avisou antes de soltar os dedos do Vaio. – É o meu brinquedo favorito.

- Está falando sério? – fez Joshua.

- É um pedido.

Joshua encarou com aparente dúvida o computador que tinha em mãos. Sentou-se com o Vaio sobre o colo.

- Belo modelo – disse.

- Obrigado – agradeceu Abraham.

- Quem vai estar do outro lado? – Charlotte perguntou.

- Martin. É o nosso lingüista. Mas infelizmente mora na França.

- Poderíamos todos ter ido para a França – Joshua murmurou enquanto ligava o notebook.

Charlotte deu um peteleco inofensivo sobre o projetor.

- Ele é velho. Eu poderia ter providenciado algo um pouco melhor – disse.

- Sou fiel aos que me servem bem.

Eric interrompeu a reunião ao abrir a porta repentinamente. Vistoriou brevemente os presentes antes de se focar em Charlotte. Estava insatisfeito.

- Tem mais alguém querendo ver você – ele informou.

Abriu passagem para Ricky – este parecia estranho dentro de um terno.

- Ricky, não era um encontro formal – Abraham sorriu levemente.

- Bem, que se dane, não é sempre que venho para Amagansett – Ricky parecia certo do próprio sucesso. – Charlotte, como está?

- Ricky – Charlotte abriu um sorriso um pouco maior antes de cumprimentá-lo com um abraço. – Faz tanto tempo.

- Não era a melhor das situações – Ricky comentou.

Mudou rapidamente de assunto:

- E aí, vamos ter comes e bebes? – esfregou as mãos num gesto genuinamente excitado. Seus olhos logo encontraram Joshua. – E quem é você?

- Joshua Hall – Abraham apresentou. – Ele vai tomar conta da parte tecnológica.

- Parece novo.

- Joshua ganhou alguns prêmios.

- Fazendo o quê? – perguntou Ricky.

- Um robô – Joshua explicou.

- Tá brincando? Como aqueles sexbots malucos? – Ricky alargou um sorriso. – Quanto custa um?

Joshua não soube como responder. Abraham deixou-os sozinhos para tratar do material que seria apresentado. Separava os papéis quando ouviu Charlotte aproximar-se. Ela não parecia querer abrir a boca inicialmente. Apenas apreciava o trabalho. Mas então foi obrigada a se pronunciar quando percebeu o olhar avaliador que Abraham decidira destinar-lhe.

- Sim? – ele perguntou.

- Você não gosta muito de conversar – ela afirmou. – Eu já percebi.

Abraham bufou uma risada discreta; voltou a separar as folhas.

- As pessoas me desconcertam.

- Parece que Laurence te colocou em uma posição infeliz.

- Eu não tenho do que reclamar.

Fez um breve silêncio.

- Seu pai era certamente muito mais carismático do que eu sou.

- Ele sabia lidar com multidões.

Mas Abraham encarou-a com curiosidade. Charlotte esclareceu:

- Você sabe. Nathaniel Hayes inaugurando uma biblioteca nova. Uma nova ala da faculdade. Uma nova ala do museu. As pessoas enlouquecendo e tirando fotos.

Abraham sorriu com o canto dos lábios.

- Eu não lhe contei – disse. – mas já conhecia você – admitiu.

Charlotte pareceu surpresa.

- Você era pequena – Abraham explicou. – Não deve se lembrar. Era uma palestra que seu pai estava dando. Eu achei que deveria conhecer o antigo pupilo do Laurence. Entrei sem ser convidado.

- Em Yale?

- Sim. Eu tinha dezenove anos. O que te daria...

- Catorze. Eu devia estar mortalmente entediada.

- Difícil dizer. Mas vou imaginar que sim.

- Como eu era?

- Loira.

Charlotte aceitou a verdade inegável.

- Você me viu – contou Abraham.

- Vi?

- Quando ia embora, você me disse oi. Passou por mim, ergueu a cabeça e me cumprimentou.

- É mesmo?

- Oi. Apenas oi.

Charlotte estreitou os olhos para melhor observar Abraham – como se quisesse retornar àquele momento, mais de dez anos atrás, e reconhecê-lo em meio à multidão que certamente lhe parecera soporífica na época. Nada disse. Abraham desencorajou a tentativa, desviando os olhos, focando-se no trabalho. Charlotte cruzou os braços. Apoiou-se à mesa.

- Então... acha que pode lidar com eles? – e indicou o grupo.

A visão de apenas Joshua e Ricky preenchendo os números necessários para uma expedição – Eric recostado à parede, nos fundos da sala – era quase deprimente.

- Sim. Eu posso liderar equipes.

- Contanto que todos te obedeçam.

- Contanto que todos me obedeçam.

Abraham arquivou o material em uma pasta de plástico.

- Mas estou curioso a respeito do membro surpresa que decidiu convocar – ele disse.

- Não é um membro surpresa. Taylor Christensen – Charlotte informou. – Ela costumava trabalhar para o meu pai. Foi um dos gênios agraciados com uma bolsa – e Charlotte deu um sorriso irônico. – Do falecido Instituto Hayes.

- Taylor Christensen? – Abraham ergueu as sobrancelhas.

- Você a conhece?

- Já ouvi falar. Você sabe o que ela faz, não sabe?

- Sei que ela é boa – o sorriso de Charlotte tornou-se levemente desafiador.

- Ser boa, Charlie – Abraham explicou com paciência. – não é o que basta.

- Eu sei. Eu não fui atrás dela por causa do que ela faz hoje em dia.

Abraham não insistiu.

- Vamos ver o que acontece até o fim da noite – decidiu.

Taylor Christensen apareceu com um atraso de meia-hora. Sua chegada não foi celebrada – não por Abraham.

- Eu sinto muito. Meu vôo atrasou – Taylor explicou.

Abraham trocou um olhar significativo com Charlotte.

- Que bom que podemos começar – ele disse.

Puxou uma cadeira para sentar-se diante dos demais.

- OK. Eu imagino que todos saibam por que estão aqui. Esta é Charlotte Hayes – Abraham indicou a garota com um gesto de mão. – Ela será a nossa patrocinadora. Vai fornecer tudo aquilo que será necessário. Alguma dúvida em relação a isso?

Não houve reações. Ele pigarreou.

- Eu sou Abraham Macfadyen. O responsável pela expedição. Eu conheço alguns de vocês. Não conheço muito bem os demais – vistoriou rapidamente o salão. Taylor era a única realmente desconhecida.

- Seremos só nós? – Joshua quis saber.

- Não – Abraham respondeu. – Teremos um geógrafo. Mas ainda estou trabalhando nessa parte.

Voltou os olhos – olhando por cima dos ombros – para o telão branco que descia de um rolo pregado ao topo da parede.

- Antes que vocês aceitem o trabalho – ele disse. – é importante que saibam com o que exatamente estão lidando. O que eu tenho aqui é o material concernente ao que Nathaniel Hayes estava buscando – o que nós fortuitamente vamos buscar também.

Abraham pressionou o botão único do controle do projetor. Um clique e uma imagem foi estampada sobre o telão. Era um mapa mundial.

- As áreas marcadas são áreas onde Nathaniel esteve ou onde pretendia estar. São áreas que possivelmente teremos de visitar também. Alguém está familiarizado a qualquer um desses lugares? – Abraham questionou com alguma ponta de esperança. A idéia de lidar com novatos era desgastante. – Alguém fora Ricky?

- Eu já estive – Taylor informou.

- Bom – Abraham aquiesceu. – Joshua. Está com Martin aí?

- Não.

- Vá procurá-lo. Skype.

Abraham acionou o botão uma vez mais. A próxima imagem revelou-se como um desenho em preto e branco antigo. Retratava uma coroa ricamente adornada. O desenhista parecia ter algum desvio nas mãos. Um dos lados da coroa era visivelmente torto.

- O suposto objeto que Nathaniel queria desenterrar. Uma coroa persa forjada para o rei Dário III. Não existe qualquer prova de que possa ter sido real, exceto por relatos esparsos que estudaremos... sim, Joshua?

- Estou com Martin em uma conferência.

- Ele pode nos ouvir?

- Obviamente – a voz entrecortada de Martin ergueu-se do notebook. – Abraham?

- Sim?

- Eu analisei o que você me mandou. Não há nada de estranho a respeito do material. E as páginas de texto estavam em persa antigo. Enviei a tradução a você.

- Obrigado.

- Com quem mais estou falando?

- Joshua Hall, como já deve saber. Ricky Morelli, Charlotte Hayes e Taylor...

- Christensen – Taylor prontamente informou.

- Sim – confirmou Abraham. – Somos a Get Along Gang.

Martin riu.

- Minha esposa está aqui – ele contou. – Espero que não se incomode com que ela veja o texto também.

- À vontade.

- Bom. Ela é melhor do que eu para certas coisas.

Abraham pressionou o botão do projetor uma terceira vez. O laranja de dunas de areia invadiu o telão.

- O deserto de Lut. Irã – Abraham informou. Não contou qual era a relevância do deserto – algo travou sua garganta antes que pudesse informar que havia sido ali o último lugar do qual Nathaniel Hayes realizara algum contato. – Um dos possíveis pontos de exploração.

- Um lugar horrível – Ricky murmurou.

- Então iremos para o Irã? – perguntou Joshua.

- É a idéia.

- Mas – Joshua hesitou. – Politicamente falando... a coisa não anda muito boa por lá. Não é?

- Se algum de vocês acha que quer desistir – Abraham ergueu a voz para todos. – agora é o momento. Nenhum dos lugares que teremos de visitar pode se comparar a férias em Saint-Tropez. E digo isso especialmente para você, Joshua – ele relanceou o rapaz. Mas foi Charlotte a pessoa que acabou encarando.

A garota apenas cruzou os braços – como se aquilo determinasse sua opinião. Joshua nada respondeu.

- Prosseguimos, então – disse Abraham.

As imagens seguintes eram todas referentes à geografia – o que Abraham explicou com paciência. Houve uma série de fotografias: pessoas e grupos que de alguma forma estiveram ligados à coroa ou escavações similares. Quando não havia mais nada que pudesse ser mostrado, um último clique do projetor devolveu a brancura ao telão.

- Comentários? – perguntou Abraham.

- Não há nenhuma prova de que a coroa exista – Taylor disse.

- Há evidências o bastante. O relato Dickinson, por exemplo. William H. Dickinson. Vocês acabaram de ver uma foto dele. O cara magro com chapéu engraçado.

- Só porque ele disse que teve a coroa em mãos não quer dizer que seja verdade – Taylor protestou. – Nós sabemos onde param esses relatos de “tive tal coisa em mãos, mas...”

- Dickinson era um historiador confiável para a época.

- Pode ser uma lenda.

- Sim – Abraham admitiu. – Pode ser.

Sua sinceridade pareceu calar a maioria. Houve uma pausa oportuna: a empregada de Charlotte surgiu para servir os convidados. Abraham ergueu-se da cadeira para desligar o projetor.

- Vamos para Lut? – ouviu Charlotte perguntar.

O rapaz olhou para trás. Charlotte parecia zangada – uma reação pela qual Abraham não esperava.

- Não vou levá-los para dentro. Mas é um lugar que eu preciso checar,

- Por quê?

- Porque infelizmente as coordenadas do seu pai apontam para lá.

- Não gosto da idéia.

- Nem eu. Mas, como já discutimos antes, seu pai tinha uma coisa por trabalhar sozinho. E o preço que se pagar por isso é que mais ninguém sabia o que se passava pela cabeça dele.

- Ei, Abraham? – Joshua chamou.

- O quê?

- Estou teclando com o Martin – Joshua não erguera os olhos do Vaio. – Ele quer saber o que deve fazer do material que um tal de Professor Singh mandou.

- Diga a ele que eu já tenho tudo.

Joshua escreveu conforme o pedido.

- Como eu dizia – Abraham voltou-se a Charlotte. – Só poderemos pensar realmente sobre o roteiro quando estivermos lá. Mas eu não vou sujeitar ninguém à temperatura do Lut.

- Ahn – a voz de Joshua interrompeu.

- Sim?

- “Não isto aqui,” foi o que Martin disse.

Olhou para Abraham como se esperasse por instruções.

- O que o Professor Singh mandou a ele que não entregou a mim? – Abraham perguntou.

- Cara, como é que eu vou saber? – Joshua deu de ombros.

- Peça para que Martin envie os arquivos.

A empregada aproximou-se inesperadamente do rapaz. Trazia uma bandeja de docinhos coloridos.

- Aceita um? – indagou.

Abraham encarou os docinhos. Macarrons. Ergueu um entre o polegar e o indicador, como se o doce pudesse atacá-lo. Observou Charlotte de esguelha.

- Você realmente planejou isso tudo, não? – perguntou.

- São sobras do casamento.

- Meu Deus – Abraham abocanhou o macarron de uma vez. – Quando as pessoas vão aprender a servir comida de verdade em casamentos?

- Eles foram realmente caros – Charlotte protestou.

- Sinto muito que esteja desperdiçando-os comigo.

- Pronto – Joshua alertou. – Arquivos baixados.

Foi também surpreendido pela criada. Encarou os macarrons com a mesma descrença de Abraham. Pareceu aceitar um por educação.

- Venha aqui – Abraham aproximou-se de Joshua e tomou o laptop de volta. Foi ligá-lo ao projetor. – Aparentemente há algo mais que devemos ver.

A sala aquietou com a partida dos doces e da bebida. Abraham acionou o projetor.

- Não prefere conferir primeiro o que tem aí? – Joshua perguntou.

Abraham olhou para trás com um sorriso sarcástico.

- Como o quê? Pornô?

Apertou o botão. A primeira imagem parecia distante do deserto de Lut. Mostrava árvores ricas e verdes se estendendo por um terreno irregular que não parecia ter fim. A foto havia sido tirada de uma clareira. Nada mais havia ali.

- Mas que merda?... – Abraham sussurrou para si mesmo. Acionou a imagem seguinte.

Um acampamento erguido às pressas. Havia apenas uma cabana suja. Parecia haver sido castigada recentemente pela chuva. Abraham identificava alguns utensílios de sobrevivência básicos. Um marco fora erigido diante da cabana.

As fotos seguintes pareciam repetir o padrão aleatório: eram paisagens, às vezes misturadas com cenas de um acampamento cotidiano – o tipo que poderia ter ocorrido no quintal de qualquer casa suburbana. Abraham precisou de alguns segundos para finalmente assimilar o que via. Ele agachou-se ao lado de Joshua.

- São as fotos pessoais do Nathaniel? – ele perguntou.

Joshua estranhou a pergunta.

- Eu não faço idéia – respondeu.

- Merda – Abraham amaldiçoou em voz baixa.

 Procurou discretamente por Charlotte. Ela encarava a imagem exibida com concentração. Tivesse ou não noção do que via, não demonstrava. Abraham teclou sua pergunta a Martin. A resposta foi positiva. Ele xingou uma vez mais.

- As imagens não têm nenhuma relevância – Abraham disse aos demais. Desligou o projetor. – Não eram o que eu achei que seriam.

- Poderia nos perguntar primeiro – Taylor interferiu. – Eu achei relevante.

- Não eram. Mas se faz tanta questão, pode ficar com uma cópia delas – Abraham disse. – Depois que eu tiver a chance de avaliá-las.

- Quem fez dele o chefe? – Taylor perguntou a Charlotte.

- Eu me fiz o chefe – Abraham respondeu.

- Bem. Aí está a resposta – confirmou Charlotte.

- Eu só gosto de ter certeza do que estou fazendo antes de aceitar alguma proposta – Taylor fuzilou Abraham.

- Vai ter tempo para pensar. Todos vocês terão.

- Até quando?

- Semana que vem. Espero todos no John F. Kennedy. Receberão as passagens.

Taylor arregalou os olhos.

- Não é tempo o bastante.

- É o tempo que eu tenho – Abraham deu um sorriso canalha.

- Pode contar comigo – disse Ricky. Ergueu-se e arrumou o paletó. – Eu já tinha aceitado de qualquer jeito. Não teria vindo da Flórida por nada.

Abraham dispensou-lhe um assentir pacífico.

- Obrigado, Morelli. E você, Christensen – encarou Taylor. – Pode enviar sua resposta a Charlotte. Caso decida vir conosco.

Quando a reunião parecia definitivamente acabada, Joshua deixou sua cadeira para ter com Abraham.

- O que foi aquilo? – quis saber.

- O quê?

- As imagens do projetor.

- Aquelas eram mesmo as fotos pessoais do Nathaniel.

- Bem. E daí?

- E daí que eu não vou correr o risco de subitamente ter o próprio Hayes aparecendo em uma imagem inédita para a filha desolada dele – Abraham disse entre os dentes.

- Ela parece poder agüentar. Ou não estaria fazendo tudo isso.

- Talvez. Mas não é necessário.

- Eu te disse para checar o conteúdo primeiro.

- Vou ver as fotos eu mesmo.

- Pode me mandar uma cópia, se quiser.

Mas o olhar hostil de Abraham foi o bastante para afastar Joshua.

 

 

- Bem. Acho que obtivemos algum sucesso – disse Charlotte.

Era madrugada quando abriu a garrafa de refrigerante. Deixou a tampinha rolar sobre o balcão da cozinha.

- Eu não sei – disse Eric. – Eu realmente não sei.

- Você não aprova o que eu estou fazendo. Não precisa me dizer.

- Não é tão simples.

- Você é um advogado de corpo e alma.

Passou a garrafa a Eric. Ele aceitou um gole rápido.

- Confia naquele Macfadyen? – perguntou.

Charlotte assumiu uma expressão um pouco mais séria.

- Sim – ela disse.

- Foi um sim com segurança?

- Sim, eu confio nele.

- Ele tem aquele quê ensandecido de historiador.

- Como o meu pai?

Eric encarou a garota hesitantemente.

- Não. Não foi o que eu quis dizer.

- Simplesmente não acho que Laurence me empurraria para dentro de um penhasco.

O olhar de Eric parecia dizer tudo.

- Mas você também acha que Laurence é maluco – Charlotte acusou-o com um sorriso gracioso.

- Bem. Não tenho mais nada a acrescentar.

Eric levantou-se do balcão.

- Pode ficar, se quiser – Charlotte convidou.

- É melhor não. Vou ter um dia cheio.

- Só não comece a rabiscar o meu testamento sem a minha permissão.

Eric olhou para trás com visível espanto no rosto. Charlotte baixou a garrafa antes que esta pudesse alcançar os lábios.

- É brincadeira, Eric – disse.

 

Sep. 16th, 2009

  E o que ele queria comigo?

 

 

 

- Ele não adiantou o assunto. Só disse que era urgente.

 

 

 

 

 

Martin Moreau olhou para o teto, as mãos agarrando a nuca como se fosse desparafusar a cabeça. Era seu tique nervoso de estimação, que já tinha lhe custado vários torcicolos e, em certa época, um princípio de bursite. Nunca sofrera tanto na vida quando quebrara o braço e ficara impedido de desatarraxar o crânio por quase dois meses.

 

 

 

 

 

- É encrenca, não é? – a mulher perguntou em tom retórico.

 

 

 

- Vamos colocar nestes termos, Akiyo: o Abraham não iria me telefonar para ver se está chovendo na baía de Biscaia. Mas vejamos o que ele quer. De repente...

 

 

 

- De repente...?

 

 

 

- De repente algo acontece. Há quanto tempo que eu não falo com ele? Seis, sete anos?

 

 

 

- Eu não sei. A gente não era casado na época!

 

 

 

 

 

Quem conhecia o casal se perguntava como era possível que eles se gostassem tanto Martin, filho de um famoso produtor de conhaque na região da Charente-Maritime e sua terceira esposa, igualmente de família produtora de vinhos, era a impaciência e a falta de refinamento em pessoa. Falava alto, comia com os cotovelos na mesa, conseguiu chegar atrasado até no próprio casamento.

 

 

 

Já Akiyo Nomura, filha de um professor de História, criada em Kyoto, era vista pelas francesas como quase um bibelô: passos tranqüilos, sempre com um sorriso no rosto. Os dois andando juntos na rua era um belo exemplo de antônimos: ele com um metro e oitenta, cabelo castanho caindo pelas orelhas, sardas e pêlos em todos os cantos possíveis; ela, que mal alcançava o metro e meio, quase sempre de verde ou de azul, olhos que nunca diziam a que vinham.

 

Era incrível que eles tivessem se conhecido, mais incrível que tivessem se casado, ainda mais incrível que trabalhassem juntos em uma área que os vizinhos naquela região calma de La Rochelle mal sabiam que existia. De tempos em tempos os Moreau sumiam e cartões-postais de localidades distantes na Ásia ou na África apareciam nas caixas de correio de alguns professores de Lingüística e Tradução espalhados pela França.

 

 

 

Martin discou o número anotado pela esposa e esperou vários minutos até que alguém atendeu do outro lado da linha - e do planeta.

 

 

- Abraham? Martin Moreau. Você me telefonou?

 

Uma longa pausa, interrompida por alguns pigarros da parte de Martin.

 

 

- Que eu saiba, ele já morreu faz algum tempo, não é? ... A filha dele? E ela trabalha na área? ... Médica?... Abraham, as coisas mudaram um pouquinho em sete anos. Sim, eu continuo trabalhando com línguas antigas. Sim, estive ainda mês passado numa escavação na Guatemala com a minha esposa.... É, isso foi uma das coisas que mudaram... Faz uns três anos. É, três anos em dezembro... Não, nada de filhos ainda... Sim, ela é tradutora também... Basicamente, idiomas asiáticos... Dá para ir direto ao assunto? A conta de telefone vai me sair uma fortuna!

 

 

Outro longo instante de silêncio. E, de repente, Martin desabou na cadeira mais próxima, quase quebrando o móvel.

 

 

- Essa tal Charlotte quer pagar quanto?!


(Postado pela Anna)

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Abraham estava sentado sobre a escadaria do Metropolitan quando avistou Joshua. O rapaz parecia levemente perdido. Vestia-se a caráter – para quem passava suas tardes enfurnado dentro de um escritório. Abraham fechou o celular. Havia sido sua décima tentativa de contatar Joshua.

- Odeio o Upper Side – foi a primeira coisa que disse o outro.

- Pensei que nunca chegaria – Abraham levantou-se.

- É a minha pausa para o almoço – Joshua avisou. – Espero que seja mesmo uma proposta irrecusável.

- É irrecusável. Vamos.

Abraham subiu os degraus em direção ao museu. Joshua permaneceu parado. Abraham interrompeu-se para olhar para trás.

- O quê? – perguntou.

- Mesmo? – Joshua arriscou.

- Mesmo, Joshua. Vamos.

Abraham pagou a entrada do colega – ele próprio era dono de um passe mágico que lhe isentava de comprar ingressos para si mesmo. Não estava interessado na exibição. Joshua demonstrava o oposto.

- Eu só estive no Metropolitan algumas vezes – contou.

Abraham deu uma risada leve e distraída.

- Falo sério – Joshua protestou. – Acho que as minhas visitas online são mais freqüentes. Não é meu preferido, de qualquer forma. Mas eles têm Vermeer. Cézanne.

Abraham ergueu as sobrancelhas.

- Você entende de arte, Joshua? – perguntou.

O outro pareceu desconcertado. Deu de ombros.

- Bem. Eu preciso me ocupar de alguma forma. Ficar o dia inteiro sentado em uma cadeira pode ser estafante. É tão surpreendente assim?

- Não. Não foi o que eu quis dizer.

- Você gosta?

Abraham percorria os corredores com a mente pré-programada para um único objetivo. Levou alguns segundos até perceber que a pergunta de Joshua permanecia sem uma resposta.

- De Vermeer? – indagou.

- Sim.

- Não sei absolutamente nada a respeito dele – Abraham admitiu. – Mas continue falando.

- Ele foi íntimo da Scarlett Johansson.

- Eu também queria ser.

- Você está procurando alguma coisa? Porque é difícil acompanhar o seu ritmo.

- Você disse que está no seu horário de almoço. Estou tentando fazer o processo ser o menos doloroso e o mais rápido possível.

- Bem. Não precisamos ser tão drásticos.

Joshua desacelerou o passo. Abraham parou.

- Você quer um tour? – perguntou.

- Não foi você que fez um estágio por aqui? – Joshua indagou com inocência fingida.

- Cloisters. Não aqui.

- Praticamente a mesma coisa. Faça o meu dia. Eu não tive um guia exclusivo.

Abraham suspirou. Passou a mão pela nuca.

- OK – concedeu. – Vamos lá. Este é o Metropolitan Museum de New York.

- Podemos pular essa parte.

- Certo.

Abraham olhou em volta. Encontrou algo que pudesse usar.

- Aquele é um retrato esculpido em mármore do Imperador Augusto – ele indicou a peça de pedra.

Joshua aproximou-se para ver melhor.

- Augusto foi o primeiro imperador romano – Abraham prosseguiu. – Era o sobrinho de Júlio César.

- Eu sei quem ele foi. E, bem, depois de Roma, acho que metade do planeta também sabe.

- Viu Roma?

- Brevemente – Joshua considerou. – Mas, você sabe. Não há tanta credibilidade. É só um programa de tevê.

- Não é tevê. É HBO.

- Sabe o que eu quero dizer – Joshua deu um sorriso com o canto dos lábios.

Algo atraiu o olhar de Abraham.

- Venha aqui – ele chamou.

Caminhou até uma coluna imponente de mármore.

- Isto é parte do Templo de Artemis. O pai de um dos meus professores de Yale participou das escavações. Meu professor cedeu algumas peças ele mesmo. Devem estar em algum lugar...

- E você? – perguntou Joshua.

Abraham relanceou Joshua.

- Não. Não há nada meu aqui – respondeu. – Não no Metropolitan.

- Cara – Joshua suspirou. – Eu adoraria isso.

- O quê?

- Fazer o que vocês fazem. Gostar tanto assim de alguma coisa.

- Não gosta do seu trabalho?

Joshua fez uma careta.

- Está brincando comigo? – perguntou. Mas pareceu reconsiderar. – Quero dizer. Eu gosto. Mas não é algo no qual precisei pensar muito a respeito. Eu era bom com computadores. Eu estava lá. Por que não? Entende?

- Sim – Abraham respondeu. – Venha. Quero lhe mostrar a parte egípcia.

Cruzaram o museu em busca da coleção que Abraham desejava. As peças egípcias eram coloridas em comparação ao mármore quebrado que haviam avistado até o momento. Havia dourado e azul por todos os lados. Joshua sorriu.

- Ali está o maldito hipopótamo – disse.

A pequena escultura do hipopótamo azul parecia quase cômica.

- Alô, William – Joshua riu. – Faz algum tempo.

Abraham deixou que contemplasse o mascote. Aproximou-se de um sarcófago cuidadosamente iluminado. Era cerimonioso. Outras pessoas pareciam atraídas por sua presença. Abraham logo ouviu a voz de Joshua atrás de si.

- De quem era?

- Siamun. Era um príncipe – Abraham explicou. – Ele teria governado o Egito inteiro se não houvesse morrido aos doze anos.

- É um caixão impressionante – disse.

- Ele era um primogênito. Era motivo para se comemorar. Mas o sarcófago dele foi um dos mais difíceis de se descobrir.

- Um outro professor seu achou?

Abraham indicou a placa de identificação do sarcófago. Havia sido doado pelo Instituto Hayes.

- Nathaniel Hayes. Não foi meu professor. Foi pupilo de um professor meu.

- Caramba – Joshua sorriu. – Vocês são como um clube.

- Um clube dos mais esquisitos, eu garanto – Abraham explicou. Mordeu levemente o lábio inferior enquanto observava o sarcófago. – O fato é... ele e uma equipe de outros 17 homens passaram meses escavando o túmulo. Meses. Não havia muita gente que acreditasse que poderiam desenterrar alguma coisa.

- Mas conseguiram.

- Sim. Mas sofreram muitas críticas antes. Um dos parceiros do Nathaniel abandonou o barco.

- As pessoas não têm senso de aventura.

- As pessoas que atuam na minha área adoram virar excessivamente acadêmicas, Joshua – Abraham riu.

- O que mais esse cara tem?

- Muitas coisas. Mas não no Metropolitan – Abraham fez uma pausa breve. – Ele morreu. Faz sete anos.

Joshua pareceu genuinamente surpreso.

- Sério?

- Sim. Uma das aventuras não deu certo.

Joshua encarou o sarcófago com outros olhos. Abraham relanceou o rapaz.

- A filha dele está interessada em retomar o que o pai deixou para trás – disse.

- Você é parte do projeto?

- Eu sou o encarregado.

- Ei, parabéns – Joshua sorriu.

- E quero que você participe.

Joshua arregalou os olhos. Abraham antecipara aquela surpresa. Contava com o poder de coerção que o Metropolitan exercia. Viu o rapaz entreabrir a boca, hesitante, antes de formular uma questão que transparecesse a própria desconfiança e incredulidade.

- O quê? – perguntou.

- Você ouviu.

- De verdade?

- De verdade, Joshua.

O rapaz não teve reação. Parecia perdido.

- Então era essa a sua proposta – disse. O tom quase pareceu acusatório.

- O que você achou que eu iria oferecer? – Abraham franziu o cenho em dúvida.

- Cara, eu não faço idéia. Mas não esperava que pudesse ser algo assim. Espera aí. Quer dizer... eu, fazendo parte de uma expedição?

- Bingo.

- Por quê?

- Porque você é o prodígio da computação, e eu não conheço outro.

- Mas eu nunca fiz nada remotamente parecido.

Abraham ergueu as sobrancelhas com uma leve expressão irônica.

- É mesmo? Nunca considerou?

Joshua refletiu. Abraham esperava que tivesse mordido a isca.

- Nunca quis sair do seu cubículo? – insistiu.

- É claro que já. Mas... isso significaria largar o meu emprego?

- Eu garanto que o cheque vai compensar. Os Hayes... – Abraham começou a frase. Parou e repensou. – Charlotte é rica. Bilionária.

- Mas que garantias eu tenho?

- Nenhuma. O que eu sou? Papai Noel?

- Meses escavando?

- Possivelmente. Mas esse não vai ser o seu trabalho.

- De quem vai ser?

Abraham encarou o rapaz com incredulidade.

- Meu, Joshua. Meu. Eu sou o homem que cava.

- E o que eu faria?

- Cuidaria da tecnologia de ponta que eu vou conseguir.

Joshua bufou. Cruzou os braços; descruzou alguns segundos depois.

- Eu não sei – disse.

- Pense.

- Eu tenho tempo para considerar?

- É claro que tem. Bastante.

- O que posso fazer?

- Me ligue.

Joshua assentiu.

- OK.

Deu uma última espiada no sarcófago que Nathaniel Hayes erguera da terra.

- Bem. É melhor eu ir – disse. – Trabalho – não parecia querer ir embora.

- Certo. Não se esqueça.

- Não vou.

Incerto, Joshua caminhou para além da ala da coleção egípcia. Olhou para trás uma vez – Abraham ainda estava espreitando. Joshua deu as costas – mãos nos bolsos – e apressou o passo. Sorrindo, Abraham voltou-se para o sarcófago, encarando os olhos escuros do príncipe Siamun.

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                  - Por que você está vestida como um rapper?

 

                  Charlotte acordou subitamente, os olhos castanhos de Eric fixados sobre ela com curiosidade. Havia adormecido no sofá e a televisão ainda estava ligada na ESPN e ainda vestia a calça de pijamas com o enorme moletom a Harvard Medical School. Ela não tinha ideia de que horas eram. Eric estava de terno, mochila e com uma garrafinha de água na mão, de modo que Charlotte supôs que ele viera direto do escritório de advocacia onde trabalhava na cidade.

 

                  -  Porra, Garoto da Cozinha – ela reclamou, mas esboçou um sorriso sonolento. – Há quanto tempo você está aí?

 

                  - Não muito – ele respondeu. – Mas, me responda.

 

                  - Não enche – Charlotte se ajeitou sobre o sofá.

 

                  Eric riu e se sentou ao lado dela.

 

                  - Minha mãe está preocupada com você – ele disse. – Ela acha que você arruinou a sua vida.

 

                  - Eu sei – Charlotte assentiu. – Ela já foi bastante clara comigo.

 

                  - Ela sempre é. Ela te ameaçou com a colher de pau?

 

                  - Claro.

 

                  - Imaginei que ela faria isso – ele comentou, e então, declinando para um tom mais sério, acrescentou. – Isso que você fez realmente me chocou, Charlie. Eu me empenhei bastante no seu contrato pré-nupcial já com o seu divórcio em mente, mas eu nunca imaginei que o divórcio fosse sequer ser necessário.

 

                  Charlotte não respondeu. Ela não parecia muito receptiva.

 

                  - Era um contrato pré-nupcial realmente muito bom – fez Eric. – Você acredita que os advogados dos Brandon queriam incluir uma cláusula que previa multa em caso de divórcio em época de eleições?

 

                  - Faria sentido – Charlotte retrucou, sem emoção.

                 

- OK, eu estava brincando.

 

                  - Eu sei.

 

                  - Mas era realmente um contrato muito bom. Uma obra-prima.

 

                  Após alguns instantes de silêncio, Eric perguntou:

 

                  - Você está lendo os jornais?

 

                  - Não.

 

                  - Bom para você – ele esperou por alguma reação dela. Como ela permaneceu calada, ele tomou a liberdade de prosseguir. – Estão dizendo que...

 

                  - Eu não quero saber, Eric – Charlotte o interrompeu, levantando-se do sofá.

 

                  Eric tomou um gole de sua água. Seus olhos pousaram sobre os comprimidos na mesinha de centro. Ele franziu o cenho.

 

                  - Ah, merda, Charlotte. Você ainda está tomando essas coisas?

 

                  - São só comprimidos para dormir, Eric. Não é ecstasy.

 

                  - Você está viciada neles.

 

                  Ela pegou uma garrafa de Coca-Cola no frigobar, alheia ao comentário. Eric suspirou.

 

                  - O que você vai fazer da sua vida agora que não é mais a futura primeira dama dos Estados Unidos?

 

                  - Eu vou viajar – disse ela, reassumindo seu lugar no sofá.

 

                  - O quê? – Eric perguntou. – Para onde?

                                   

                  - Não sei exatamente ainda. Estou montando uma expedição para continuar o último trabalho do meu pai.

 

                  Eric cuspiu a água que estava em sua boca.

 

                  - Você o quê?

 

                  - Não comente a respeito. Não é para ser a cobertura do National Geographic na Hello Magazine. Eu ficaria contente se pudéssemos evitar a mídia.

 

                  Eric balançou a cabeça.

 

                  - Você não pode estar falando sério.

 

                  - Estou.

 

                  - Jesus – Eric ainda balançava a cabeça. – Por quê?

 

                  - Eu não sei – Charlotte respondeu, e foi sincera. – Me parece a coisa certa. Fazia sentido, para ele. Foi por isso que ele morreu. É o mínimo que eu posso fazer.

 

                  - Isso é loucura, Charlie.

 

                  - Talvez seja – ela concordou. – Mas eu gostaria realmente de que você não contasse a ninguém. Nem a Dolores.

 

                  Eric assentiu.

 

                  - Quando você vai?

 

                  - O mais breve possível. Assim que tivermos uma equipe e o que mais for necessário.

 

                  Eric deixou sua garrafa de água em cima da mesa do centro e se encaminhou ao bar, em busca de algo mais forte. Ele engoliu de uma vez uma dose de conhaque. Charlotte se ateve à sua garrafa de Coca.

 

                  - Eu preciso de uma ajuda sua, Eric.

 

                  Eric voltou-se para ela, sem saber o que esperar. Ela hesitou um momento antes de prosseguir. Era uma ideia que havia desenvolvido após a saída de Abraham. Algo tão óbvio que ela ficara chocada por não ter cogitado mais cedo. Sentia-se idiota por ter passado tanto tempo se torturando com a possibilidade de convidar Jordan quando havia uma solução tão evidente.

 

                  - Sei que você tem formas de descobrir isso para mim. Preciso saber onde encontrar Taylor Christensen.

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