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O bed & breakfast era agradavelmente silencioso. Estava localizado próximo da praia – não necessariamente a paragem predileta de Abraham. A recepção tinha um pequeno móvel coberto por conchas pintadas à mão; era possível sentir o cheiro imaginário de maresia que emanavam. O lugar pertencia a uma senhora simpática. Possuía cabelos tingidos de um tom loiro muito claro. Usava um pequeno avental que poderia ter sido herdado de Tasha Tudor.

- Seu quarto está pronto, Sr. Macfadyen – ela sorriu. Entregou uma chave cujo chaveiro de madeira esculpida simulava uma pinha.

Guiou Abraham até o andar de cima. O quarto estava envolto por papel de parede discretamente florido. Abraham largou a pouca bagagem sobre o chão.

- Qualquer coisa, pode chamar por mim – disse a senhora. – Ou o Boyd. O Boyd fará tudo que pedir.

Tomar um banho foi a primeira escolha de Abraham. Encheu a banheira – não havia um chuveiro – com água quente. Não tivera ciência do próprio cansaço até mergulhar para dentro, apoiando a cabeça sobre a borda. Fechou os olhos e teve a sensação de cochilar por alguns segundos. Despertou com o nome Hayes na cabeça.

As fotos de Nathaniel. Abraham ligou o notebook tão logo abandonou o banheiro. Joshua arquivara os documentos em uma pasta oportunistamente chamada ‘EU AVISEI.’ Abraham reconheceu as fotos que vira em Amagansett – e muitas outras.

- O que você estava fazendo, Nate? – Abraham soltou um suspiro impaciente. Sentia a toalha e seu próprio corpo molhando a superfície macia da colcha da cama. Era tentador demais simplesmente desfalecer sobre ela.

Ele prosseguiu passando as fotos. Reconhecia a paisagem como alguma localidade africana. Não uma que houvesse visitado. O que Nathaniel decidira fazer na África? Cronologicamente, Abraham identificava-as – as fotografias – como tendo sido tiradas alguns meses antes do desaparecimento em Lut. Não encaixava a viagem.

A vigésima sexta foto revelou algo diferente: não havia paisagem longínqua. Apenas uma pedra. A superfície da pedra parecia gravada. A iluminação não facilitava tanto a identificação – mas Abraham conseguiu reconhecer o desenho de uma espiral.

Não havia palavra de Martin a respeito acompanhando os arquivos. Abraham tentou caçá-lo online. Como Martin parecia haver desaparecido, enviou um e-mail suficientemente curto:

 

Espirais na pedra. O que significam?

 

Ainda fitou o círculo até que a imagem começasse a se tornar incômoda. As fotos seguintes focavam-se na mesma pedra: sob ângulos diversos. Então, de repente, paravam. Abraham estava de volta ao acampamento. As fotografias voltavam a parecer desconexas. Uma fogueira apagada. Um par de sapatos. Uma trilha que acabava em árvores aglomeradas. Papéis diversos – nada que pudesse ser lido àquela distância. Papéis com espirais desenhadas. Inúmeras espirais sem fim. Um braço humano entrecortado pelo plano da fotografia. Um acampamento.

Nathaniel ao fundo.

Abraham arregalou levemente os olhos. Era Nathaniel. Distraído – pego por acidente pela fotografia. Encarando algo de seu interesse. Outra pessoa havia tirado a foto.

Abraham direcionou um e-mail ao Professor Singh:

 

Detalhes sobre os arquivos que Martin Moreau enviou.

 

Nathaniel parecia sorrir como um fantasma distante. Estava levemente barbado. Parecia – embora Abraham não pudesse especificar com precisão – exausto.

O rapaz desligou o notebook. Não poderia lidar com aquilo no momento. Abandonou a máquina sobre a escrivaninha, mas ficou a fitá-la mesmo no escuro. Era uma situação menos problemática do que parecia agora. Pensaria com clareza quando a manhã viesse.

Se a manhã viesse com alguma rapidez.

Abraham sentia-se incapaz de pegar no sono quando deitou a cabeça sobre o travesseiro. Ainda estava molhado.

Via as repetições de fotografias repassadas dentro de sua cabeça como se houvesse formado um elo sobrenatural com o computador. Mata; mata; espirais; espirais; espirais; pedras; Nathaniel.

 

 

Em seu sonho – ou pesadelo – Abraham ainda tinha dez anos de idade. O calor africano se misturava com o frio natural do Michigan. Estava parado em sua clareira. A água da chuva jamais secaria. Suas roupas encharcadas grudavam – pesavam.

- Já que é assim – Abraham admitiu a si mesmo.

 

 

- Por que não fiquei sabendo antes? – Abraham explodiu num tom acusatório. Renata – que passava distraidamente pelo corredor – quase deu um pulo. Abraham notou-a com o canto dos olhos. – Me desculpe. Não é com você.

Ela assentiu e partiu em silêncio. Laurence, sentado, não parecia realmente chocado. Sua testa estava enrugada em uma expressão que poderia tanto ser de descaso quanto de remorso.

- Eu sinto muito, Abraham – disse.

- Quantas pessoas viram as fotos?

- Singh, eu e a polícia – e você, é claro.

- O que a polícia disse?

- Descartaram. Houve uma busca rápida pela África, mas por razões óbvias, não foram onde concentraram as equipes de resgate. Havia a pequena possibilidade de que Nathaniel pudesse ter sido seqüestrado por alguma milícia. Mas, o que quer que ele tenha decidido fazer na África, não durou o bastante.

- Por que ele enviaria as fotos?

- Ele queria que Singh desse uma olhada nos círculos que achou – e Laurence desenhou círculos infinitos com o dedo indicador. – As espirais.

- Singh não me disse nada a respeito.

- Porque não achou nada a respeito. Ele não acha que as espirais tenham sido realmente relevantes. O fato é – ele lançou um olhar sério a Abraham. – que discutimos por um bom tempo se deveríamos lhe enviar as fotos ou não. Achamos que talvez pudesse atrapalhá-lo, e não ajudá-lo.

- Bem...

- Eu sei.

- Foi um pouco incômodo precisar exibir as fotos aos outros.

- Charlotte viu?

- Não o bastante para perceber do que se tratavam.

- Deve mostrá-las a ela.

- Eu sei. Mas prefiro não fazer em público.

- Renata, você pode vir – Laurence chamou. – Ele não vai morder – e voltou seus olhos para Abraham. – Como é a equipe?

Abraham deu de ombros. Renata apareceu com um pano de cozinha entre os dedos. Parecia confusa e hesitante.

- Querem beber alguma coisa? – perguntou. – Ou vocês dois vão brigar?

- Eu vou me comportar – garantiu Abraham.

- Ele é normalmente assim – Laurence sorriu. – Não se preocupe.

- Eu aceito uma cerveja – disse Abraham.

- Coors? – perguntou Renata.

- O que existir dentro da geladeira.

Renata assentiu e voltou à cozinha.

- A equipe é peculiar – prosseguiu Abraham.

- Você chamou Martin?

- Sim. A esposa dele também vai participar.

- Martin se casou?

- É o que tudo indica.

Renata retornou com uma garrafa gelada e um copo. Abraham ignorou o copo.

- Obrigado – agradeceu, tirando a garrafa aberta das mãos da moça. Renata observou com espanto Abraham virar a cerveja como se bebesse água.

- E o senhor, Sr. Hamlin? – perguntou.

Mas Laurence fez um sinal como a indicar que estava servido.

- Charlotte é muito difícil de ser convencida?

- Não – respondeu Abraham. – Ela aceita minhas sugestões. Mas acredito que seja mais um mérito seu do que meu – Abraham refletiu. – Ela cometeu um erro.

- Qual?

- Chamou alguém que eu não aprovo e não sei se pode ser confiável.

- Conheço a pessoa?

- Taylor Christensen.

Laurence franziu o cenho em dúvida.

- Provavelmente não sabe quem é. Eu a conheci – de nome – enquanto estava com o professor Gianopoulos. Parece que ela e um grupo vinham realizando pequenos trabalhos ilegais na área.

- Mercenários?

- Mercenários – Abraham confirmou.

- Por que Charlotte decidiu chamá-la?

- Você não acreditaria – Abraham deu um sorriso maldoso.

- Experimente.

- Parece que ela foi uma das bolsistas de Nate.

Laurence pareceu incrédulo.

- Verdade?

Sua surpresa não durou o bastante.

- Bem. Partiria o coração de Nate – presumiu.

Ele consultou o relógio.

- Boa coisa em que decidi convocar Charlotte, então.

Abraham quase engasgou com seu resto de bebida.

- Charlotte? – indagou. – Charlotte está vindo?

Laurence confirmou com um aceno casual de cabeça. Abraham estreitou os olhos.

- Era com ela que estava falando quando eu cheguei – acusou.

- Viso o melhor interesse de todos.

- Calculista.

- Ora, Abraham – Laurence riu. – O roto não pode falar mal do esfarrapado.

Abraham deixou Laurence sozinho e rumou à cozinha. Atirou sua garrafa de cerveja no lixo. Renata fez uma careta.

- Isso é reciclável – disse.

Abraham ergueu os olhos para encará-la.

- Estou escondendo evidências.

A empregada não pareceu se convencer. Abraham escutou o motor de um carro enquanto voltava para a sala. Laurence estava de pé – mãos nos bolsos – aguardando. Qualquer que pudesse ser sua preocupação com Charlotte, Abraham pensou, parecia ser sincera. O próprio Laurence abriu a porta.

- Aí está você – disse para alguém que Abraham não enxergava.

Quando Charlotte cruzou a porta, porém, encararam-se instantaneamente. Charlotte deu um leve sorriso receptivo.

- Já conhece Abraham – Laurence disse. Fechou a porta.

- Não imaginei que estaria aqui – admitiu Charlotte.

- Eu sei. Posso dizer o mesmo.

- Charlotte, o que achou da equipe que – e Laurence encarou Abraham. – Abraham escolheu tão cuidadosamente? – voltou a olhar para a garota. – Sente-se, por favor.

- Professor? – ouviram a voz de Renata.

A garota estava parada como um espírito vigilante.

- A visita vai querer beber alguma coisa?

Laurence fitou Charlotte em silêncio.

- Bem – Charlotte hesitou. – Cerveja, eu acho.

Renata não pareceu entusiasmada.

- Também vai esconder evidências? – perguntou. – Porque eu posso trazer um copo.

- O quê?

- Coors? – a empregada ofereceu.

- Coors está bem.

Charlotte retirou o casaco que vestia enquanto Renata desaparecia uma vez mais da vista dos outros.

- Quer saber sobre a equipe? – Charlotte perguntou.

- Eu adoraria – Laurence sentara-se.

- Eles parecem bons. Competentes. Eu já conhecia Ricky, é claro.

- Richard Morelli – Abraham explicou a Laurence.

- Sei – o professor refletiu. – O bruto com um coração.

Renata trouxe a cerveja Coors e um copo. Charlotte bebeu em silêncio, diretamente da garrafa.

- Joshua Hall. Suposto gênio da informática – ela continuou.

- Terrivelmente novo – decidiu Laurence.

- Abraham parece confiar nele.

- Joshua tem o currículo que eu procuro – disse Abraham. – Não se intrometa nisso.

- Ainda assim é novo demais. E não tem experiência nenhuma na área, o que torna tudo mais perigoso.

- O que Joshua exercer vai deixá-lo fora do epicentro de riscos. O trabalho duro vai ser meu, Laurence.

- E a garota que você mencionou?

Abraham e Charlotte entreolharam-se em silêncio.

- Taylor – Abraham nomeou. – Sim. Ela também é arqueóloga.

- Então vai dividir o dito trabalho duro com ela? Supondo que encontrem alguma coisa.

- Sim – Abraham admitiu a contragosto.

- Ouvi dizer que ela é problemática – Laurence relanceou Charlotte.

Charlotte apoiou o queixo sobre um punho.

- Bem. O currículo dela é impecável.

- Confia nela?

Charlotte pareceu ponderar a respeito da pergunta.

- Costumava – respondeu com sinceridade. – Mas muita coisa aconteceu. O que eu sei é que ela gostava do meu pai. Ela foi uma das bolsistas do instituto.

Laurence absorveu a informação como se houvesse escutado-a pela primeira vez.

- Entendo.

- Abraham não aprova – Charlotte disse. – Mas estou vendo que, pela cara de vocês dois, ele já te contou.

- É só uma defesa natural que eu tenho contra mercenários.

- Ela está sendo suficientemente paga para não causar nenhuma merda catastrófica – Charlotte explicou.

- Acha que ela está fazendo isso pelo seu pai? – indagou Abraham.

- Talvez. Mas não importa. Eu não vou vender o que quer que a gente descubra para quem simplesmente oferecer mais dinheiro, e a Taylor sabe disso.

Laurence encarou Abraham sem dizer palavra.

- Faremos como quiser – o rapaz concordou.

- Ótimo.

Embora Laurence houvesse cedido, era difícil saber até que ponto ele aprovava a situação.

 - E nos resta? – perguntou.

- Um geógrafo. Uma geógrafa – Abraham corrigiu-se.

- Já tem em mente alguém?

- Sim. Audrey Shellden.

Laurence demonstrou achar a escolha curiosa.

- Cuidado. Ela é cria do governo.

- Ela prestou bons serviços ao Professor Gianopoulos.

- É o que me preocupa – e Laurence sorriu.

Uma possibilidade mais séria pareceu lhe ocorrer.

- É importante que essa expedição seja moderadamente sigilosa – ele alertou.

- Alguém quer roubar nosso momento de glória? – Charlotte perguntou.

- É possível. E, depois, não imagino que você queira atrair a atenção da imprensa, Charlotte.

A garota ficou subitamente muda.

- Vou tomar conta de todos nós – Abraham garantiu.

 

 

Foi emboscado por Charlotte quando abria a porta do carro. Ela não parecia muito feliz.

- O que estava fazendo? – quis saber.

Abraham não entendeu.

- Seja mais explícita – pediu.

A brisa do mar soprava irritantemente sobre os cabelos deles.

- Queria que Laurence me fizesse desistir da Taylor?

- Não, Charlotte.

- Eu já sei que não aprova minha opinião.

- Não vou jogar isso na sua cara. Não se preocupe.

Pretendia entrar no carro, mas Charlotte prendeu a porta do automóvel com o pé. Abraham trincou os dentes diante daquele gesto.

- Escute, você é a patrocinadora. O dinheiro está em suas mãos. Pode despedir todos que eu chamei, se quiser. Pode contratar mil Taylors.

- Não vou fazer isso.

- Não?

- Não. Porque eu confio em você – Charlotte erguera levemente o tom de voz. A frase implicava que ela não acreditava que o sentimento pudesse ser recíproco.

Abraham suspirou.

- Eu não já questionei sua decisão. Se acha que ela é a correta, então também confiarei em você – disse.

Charlotte ficou em silêncio.

- Taylor Christensen nem mesmo parece acreditar na possibilidade de encontrarmos alguma coisa.

- Você acredita? – Charlotte inquiriu.

Era uma pergunta traiçoeira. Abraham encarou-a brevemente, medindo o que Charlotte queria ouvir.

- E não me pergunte se é importante – Charlotte avisou. – Porque é claro que é.

- Você acredita?

Charlotte não pestanejou.

- Eu preciso. Ou não faria o que estou fazendo, não é?

Abraham achava improvável que Charlotte houvesse iniciado toda aquela cadeia de eventos por uma coroa. Era a memória de Nathaniel falando através da filha. Havia uma centelha minúscula de esperança no olhar da garota que entregava sua expectativa de trazer o pai de volta – ou parte dele.

- Eu acredito se você acreditar – disse Abraham.

- Eu acredito – Charlotte garantiu.

Fez uma pausa. Abraçou o corpo como se tentasse escapar da brisa fria.

- Você sabe...

- Sim?

- Não é bom pensar que meu pai não voltou por causa de algo que nem mesmo existia.

- Olhe. Seu pai, Charlotte... – Abraham começou. Interrompeu-se brevemente – Seu pai... tinha faro para certas coisas. Ele geralmente estava certo.

- Geralmente.

- É o melhor que todos no ramo podem fazer.

- Você está geralmente certo sobre o que faz?

- Não. Eu estou sempre certo.

Charlotte aceitou a promessa; deu um passo para trás – indicando que permitiria que ele partisse.

- Talvez eu ligue para você mais tarde – ameaçou.

Abraham observou-a retornar para a casa de Laurence antes de fechar a porta e ligar o motor.

 

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