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 Sentada em frente ao notebook, Audrey conferia os dados da última pesquisa de campo com o imenso relatório que acabara de escrever, sobre impactos ambientais na construção de um novo mega-complexo de prédios. Estava tudo certo. Passou a mão pelos cabelos curtos cor de mel, bagunçando-os, pegou a caneca vazia ao lado do computador e seguiu para a cozinha. Espreguiçou-se no caminho, já trabalhava naquilo desde que chegara em casa, queria ter o fim de semana livre. 

Não era comum levar trabalho para casa, mas esse relatório precisava estar pronto na segunda, e, ao invés de ficar trabalhando até tarde em sua sala claustrofóbica e monótona, decidiu levar os dados para casa. Pelo menos poderia colocar uma roupa mais confortável, música alta e café decente. O café do trabalho tinha gosto de meia velha, além de ter cinco vezes mais açúcar do que uma pessoa normal acharia aceitável.  

Olhou para o relógio da cozinha, já eram 3:30h. Abriu a geladeira. Vazia, exceto por garrafas de cerveja e água. Deveria ter passado no mercado depois do trabalho, mas como queria se livrar logo da carga extra, acabou dirigindo-se para casa e esqueceu-se do tempo e da fome. Mas agora seu estômago lhe avisava que já estava há quase 12h sem comer. Praguejou qualquer coisa, vestiu uma roupa mais apresentável para sair na rua, colocou um casaco por cima e seguiu para a lanchonete 24h que ficava a duas quadras de casa. 

Era um lugar bastante iluminado, o que fez seus olhos doerem.  Apesar do horário, o lugar estava com vários clientes, então Audrey seguiu direto para o balcão, queria colocar qualquer coisa no estômago o quanto antes. Deu uma olhada rápida nos salgados da vitrine e pediu à atendente um croissant grande recheado com queijo e tomate e um suco de morango. A mulher, que sorria amigavelmente, perguntou se queria outra coisa. 

- Não, obrigada. - Respondeu, já começando a comer o croissant. Mas depois pensou melhor. Não teria o que comer de manhã. Voltou-se para ela e disse, logo depois de engolir - vocês tem algo pra viagem? 

-Sim, senhora! Todos os doces e salgados da vitrine podem ser levados para viagem. E também todos os sanduiches do cardápio. - A atendente falou ainda sorridente. Audrey reparou que seu sorriso tinha alguma coisa de alterada, mas não sabia dizer exatamente o quê. 

- Muito bem, eu quero... - mordeu outro pedaço do lanche - esse sanduiche divertido. 

- Esse é para crianças, senhora. - Explicou a atendente.

- Não importa, eu fico com ele. Parece apetitoso. 

- Sim, senhora. Deseja mais alguma coisa?

Audrey olhou para o croissant já pela metade. Ainda tinha fome. 

- Quero outro croissant desses. E a conta, sim? 

- O pagamento é ali no caixa, senhora. - A mulher indicou o caixa e entregou o croissant, juntamente com o suco e a ficha que continha os itens do pedido. Audrey pagou e sentou-se numa mesa para duas pessoas, terminando de comer enquanto esperava pelo seu futuro café da manhã. Os olhos estavam quase fechando. Cochilou momentaneamente, foi acordada pela mesma mulher a quem tinha feito os pedidos, ela estava lhe entregando o pacote com seu sanduiche e um bonequinho de coelho. 

- O que é isso? - Perguntou Audrey, olhando o bonequinho.

- É o brinde, senhora! - A mulher respondeu, o sorriso ainda mais afetado. 

- Ah, certo. Bem, obrigada. - Falou, levantando-se.

-Volte sempre, senhora.

Meteu o boneco dentro da bolsa e seguiu para casa. Já podia ver sua cama macia chamando-a. Tirou os sapatos já  na sala, jogando-os de qualquer jeito pelo chão, o casaco por cima do sofá. Largou o saco com seu sanduiche em cima da mesa da cozinha e jogou-se na cama com a mesma roupa que tinha saído. Instantes depois já estava dormindo e sonhando. 



Audrey acordou ao som de "I'd rather dance with you", o toque do seu celular. Grogue, pegou o aparelho na mesa de cabeceira e atendeu, a voz típica de quem estava dormindo. 

-Alô?

-Audrey? - A voz do outro lado parecia meio incerta se tinha mesmo ligado para o número certo. 

- Sim, esse é o meu número. - Bocejou - Quem é? 

- Aqui quem fala é Abraham. - Como ela não esboçou nenhuma reação, adicionou - Abraham Macfadyen. Arqueólogo, eu...

- Ah! Claro! Abraham! - Audrey agora soou mais desperta - Desculpe, é que você me acordou. O cérebro ainda está meio lento. Mas então, já faz bastante tempo que eu tive notícias suas. O que o faz me ligar assim, de repente? 

- Bem, tenho um assunto para tratar com você, mas eu preferiria não falar disso pelo telefone. 

- Hm. Já que é algo assim tão repentino, suponho que seja a respeito de uma expedição?

Ele ascentiu.

- Certo, podemos nos encontrar para o café da manhã e aí conversamos.

- Dado o horário, acho melhor nos encontrarmos para um almoço. 

- Que horas são? - Audrey perguntou, já checando o relógio de pulso que não tirara para dormir - Meu Deus, 12:40h! Não achei que fosse dormir até tão tarde. Almoço está bem, então! Alguma preferência de lugar?

Abraham passou as coordenadas do local e ficaram de se encontrar lá dentro de 1h. Tempo suficiente para tomar um banho e chegar lá despreocupada. Olhou de soslaio o saco do sanduiche que tinha comprado na noite anterior. Resolveu comê-lo. Uma expedição, pensou, com o sanduiche na boca, enquanto despia-se. Ponderou que tipo de proposta Abraham teria para ela. Empurrou o resto do sanduiche na boca e entrou no banho.






Audrey chegou no restaurante indicado. Era um lugar bem aconchegante, com algumas árvores fazendo as vezes de corredor até a entrada. As paredes e o chão eram de tábuas de madeira, a decoração era rústica. Vasculhou rapidamente o ambiente até localizar Abraham já sentado em uma mesa no canto, próximo da janela, um copo de cerveja na sua frente. Ela seguiu até ele e o cumprimentou.

- Esperou muito?

- Cheguei tem uns 10 minutos. Cabelos curtos agora? - Ele comentou, bebendo um gole da cerveja. 

- Resolvi mudar um pouco. Gostei do lugar. - Ela respondeu olhando o ambiente. Puxou a cadeira em frente a Abraham e sentou-se. 

- Gosto daqui, não tem gente demais. Além do mais, é perto de onde eu estou. 

A garçonete os interrompeu.

- Gostariam de fazer o pedido? A sugestão do chef pra hoje é salmão ao molho de ervas. É muito bom! Se os dois pedirem, tem desconto de casal. 

- Não somos um casal - Abraham explicitou para a garçonete. 

- Mas aceitamos o desconto. - Audrey complementou, sorrindo. - E eu quero um chopp, por favor. 

A garçonete ascentiu e seguiu para a cozinha. 

- Continua pão-dura, então? - Ele comentou, diante da atitude dela, que deu de ombros. 

- Não sou pão-dura, apenas acho que não precisamos gastar dinheiro que não precisa ser gasto. E você come qualquer coisa. E salmão é bom. 

Abraham suspirou. 

- Bem, vamos ao assunto, então. Lembra-se de Nathaniel Hayes?

- Claro, quem não se lembraria! Ele era a estrela do mundo da arqueologia. Não me diga que isso é outra expedição de busca pelo corpo dele? - Ela falou, apoiando o rosto com a mão. 

- A filha dele está querendo continuar a busca que ele fazia quando morreu. 

Audrey arregalou os olhos. 

- Uau! Não sabia que a filha dele era do meio. - Ela falou em tom de surpresa.

- Não é, ela é médica. - Abraham disse simplesmente.
 
- Bem. Então eu suponho que vocês estejam precisando de uma geógrafa e geóloga para a expedição. 

- Você está disponível? Sei que está trabalhando para o governo. 

- Ora, eu posso estar disponível. Depende de quanto estamos falando. Meu trabalho para o governo é bem flexivel. Além disso, estou lá mais pela grana e pelos contatos. 

- Tem uma caneta? - Audrey fuçou na bolsa e entregou-lhe uma caneta esferográfica preta. 

Ele pegou um guardanapo e anotou uma quantia, arrastou-o pela mesa até ela. 

- Não precisa responder agora. - ele adicionou, quando o papel estava nas mãos dela.

Ela olhou o valor e abriu um largo sorriso. 

- Ora, estou disponível, sim! 

- Você sabe que não vai ser algo exatamente fácil ou seguro. 

Ela o olhou com ar de surpresa e interrogação.

- Querido, por esse dinheiro eu iria numa expedição ao inferno. - Disse e depois riu. - Quando partimos?

A garçonete chegou então com os pratos. 

- Semana que vem. 

- Perfeito! - Falou, já dando uma garfada no prato. 

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