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 Abraham rodava um dos pequenos alfinetes entre o indicador e o polegar. Um mapa gigantesco permanecia estendido diante de seus olhos, sobre a mesa, Ricky a encará-lo do outro lado. Algumas localidades haviam sido devidamente alfinetadas em diversas cores. O Irã – Kerman e as proximidades do Dash-e Lut. O lugar mais quente do planeta.

- Mais alguma coisa? – perguntou Ricky. – Mais algum lugar onde deveríamos estar?

Abraham espetou seu alfinete sobre o Caribe em silêncio.

- Não comece – riu Ricky.

A garrafa de Heineken de Abraham estava vazia. Ele constatou o fato ao girá-la distraidamente, sentindo a leveza incômoda. Era tarde – mas não tarde o suficiente.

- Vai haver uma mudança de planos – Charlotte informou, retornando de sua breve ligação. Devolveu o telefone sem fio ao carregador. – Marque Teerã aí – pediu.

Os três estavam reunidos em Manhattan, no apartamento de Charlotte, para as últimas considerações a respeito da viagem. Ricky trouxera uma lista do transporte necessário, visando diferentes áreas geográficas em que atuariam – se chegassem a tanto. Charlotte comprometera-se a consegui-los. A lista havia sido colada sobre a tela da televisão.

- Por que Teerã? – Abraham perguntou.

- Há alguém que eu quero ver – explicou Charlotte.

Como Abraham meramente mostrou-se pouco impressionado, Charlotte prosseguiu:

- Thierry Mirabeau.

Abraham deu um sorriso leve. Olhou para Ricky em dúvida.

- Thierry Mirabeau – repetiu. O nome não lhe dizia muita coisa.

Ricky deu de ombros.

- Ele é um diplomata – disse Charlotte. – Conhecido do meu pai.

- E é importante?

Mas Charlotte apenas lançou um olhar auto-explicativo ao rapaz.

- OK. Entendi – Abraham concordou. – Teerã, então.

Marcou boa parte do território iraniano com sua própria garrafa vazia.

- Então Ricky vai pilotar – ele recapitulou.

- Eu chamaria Charlotte para ser a co-piloto – Ricky disse. – Mas, infelizmente, ela não tem as horas de vôo necessárias.

Abraham olhou para Charlotte com surpresa.

- Você voa? – perguntou.

- O serviço completo – informou a garota. – Meu pai me ensinou.

- Nate era um ótimo piloto – Ricky pareceu recordar. – Poderia ter sido profissional, mas gostava mais de colecionar hobbies. E era um grande hobby. Um dos favoritos dele.

- Como John Travolta – Abraham assentiu.

- Abraham odeia aviões – sorriu Ricky.

Charlotte pareceu avaliar a questão.

- É mesmo? – quis saber. – Por quê?

- Porque eu sou pré-histórico. Pré-histórico e mal-humorado.

Abraham ergueu-se. Agarrou a garrafa com uma das mãos e o casaco com a outra.

- Onde fica a sua cozinha? – perguntou.

Charlotte tomou a garrafa para si.

- Eu cuido disso, Sr. Macfadyen.

- Não se esqueça da lista – Abraham alertou.

- Não vou.

Abraham vestiu o casaco e olhou para Ricky.

- É melhor eu ir. Amanhã vai ser um longo dia.

Ricky deu um tapa entusiasmado sobre a própria coxa.

- Eu mal posso esperar – deleitou-se. – Espere. Acompanho você – também abandonou sua cadeira.

Tomaram o elevador luxuoso. Abraham recostou-se contra um dos painéis de madeira e soltou um suspiro.

- Está muito cansado? – indagou Ricky.

Abraham moveu a cabeça em direção ao colega.

- Por quê? – perguntou.

 

 

- Mulheres – disse Abraham.

- Mulheres – Ricky concordou. Sugou a cerveja que pedira como se bebesse suco de laranja. O barman convenientemente surgiu para perguntar o que viria a seguir.

Abraham empurrou o próprio copo. Ricky requisitou uma nova cerveja ao erguer o dedo.

- Nós realmente vamos para o Teerã? – perguntou Abraham.

- Vamos – Ricky parecia ver o fato como consumado. – Não se escapa dos Hayes.

Olhou para o copo vazio da Abraham.

- Você ainda tem problemas com essa maldição?

Abraham observou o copo com indiferença.

- Mais do que gostaria – disse. – Mas não quando em serviço – explicou.

- Você agüenta umas boas porradas, não é? – Ricky riu. – O velho e bom Abraham. Vem, vamos ver as mulheres.

As strippers desfilavam com seus biquínis brilhantes e seios desnudados. Ricky batia palmas quando alguma parecia agradá-lo o suficiente. A mulher sorria em retribuição. Insinuava que poderia haver um pagamento mais apropriado do que aclamação.

- Você tem um trocado sobrando por aí? – Ricky perguntou a Abraham.

Mas Abraham ignorou o pedido. Chamou uma das dançarinas com um sinal de dedos. A garota veio engatinhando devagar até o rapaz, transformando cada movimento em um espetáculo para os que demais assistiam.

- Posso me juntar a você? – Abraham perguntou.

A stripper sorriu. Era loira – um dourado possivelmente não natural. Tinha auréolas rosadas e perfeitas.

- Depende – respondeu.

- Do quê?

A stripper colocou-se de pé. Abraçou-se ao poste como se quisesse se proteger – tal qual uma colegial inocente – dos perigos que poderiam cercá-la pelo mundo.

- Você é um bom dançarino? – ela inquiriu.

- Você quer que eu dance com você? – Abraham ergueu as sobrancelhas.

A garota não respondeu, lançou uma mecha de cabelo para trás.

- OK. Eu danço com você – concordou Abraham. Levantou-se e tirou o casaco.

- O quê? – Ricky perguntou. – Não. Não, cara, não faça isso.

Mas Abraham já estava sobre a passarela. Houve vaias imediatas dos outros homens presentes. A stripper loira pareceu deliciosamente encantada e receosa.

- Você tem coragem – disse. – O Peter vai ficar furioso.

- Desça daí, porra – um dos barmen gritou.

Abraham exibiu um gesto ofensivo de cima da passarela.

- Meu Deus, não faça isso – a stripper deu um risinho nervoso.

- Aquele é o Peter?

- Não. Peter é o gerente. Aquele é só o garoto novo.

O barman aproximara-se. Ricky estava de pé antes mesmo que ele pudesse alcançar Abraham.

- O quê? Vai querer brigar? – indagou Ricky. Fazia sombra contra o corpo subitamente hesitante do novato. – Estamos pagando por essa merda.

- É contra as regras – o barman explicou. – É contra as regras – ergueu a voz para Abraham.

- Não seja um cockblocker – Abraham sorriu. – Se quiser me bater, venha até aqui. Junte-se a nós.

Mas o tamanho de Ricky conseguiu espantar o barman – até que ele conseguisse reforços.

- Tudo bem aí em cima? – Ricky perguntou.

- Excelente.

- Bom pra você, cara. Mas agora pare de atrapalhar a minha vista e desça logo. Você vai esvaziar o bar.

Abraham saltou tranqüilamente para o chão.

- Aproveite o que você tem agora – disse. – Você vai para o Irã. Vai experimentar um dos piores regimes já criados pelo homem – olhou de esguelha para Ricky. – E estamos bêbados, se não percebeu.

- Eu sei.

Ricky pareceu refletir.

- Aquelas merdas de burkas. Quanta autonomia vamos ter?

- O que quer dizer?

- O governo vai nos seguir ou algo assim? Porque eu não posso lidar com o governo. Eu estou por aqui com o governo. Foi assim no Quênia. Aquela porra toda.

- O governo estará onde estiver de estar. Vou fazer o possível para nos manter isolados.

- Conto com você.

A stripper loira chamou-os quando deixavam o bar. Ela também parecia encerrar o expediente. Vinha com um casaco de pele artificial cobrindo o corpo pouco vestido.

- Não quer saber o meu nome? – ela perguntou a Abraham.

O rapaz olhou para trás.

- Vai me contar?

- Starr.

Abraham deu um sorriso.

 - Estou chocado.

- Não como em estrela brilhante. Starr. Como Ringo Starr. Carla Starr. Mas alguém achou que só Starr era um bom nome artístico. Eu danço bem?

- Eu dou nota dez para você – Ricky afirmou.

Starr sorriu.

- Vocês dois podem voltar quando quiserem. Não liguem para o novato. Já aconteceu coisa pior por aqui.

- Starr, se conseguirmos retornar do nosso trabalho incrivelmente perigoso e excitante – Abraham começou. Abriu a porta do carro alugado. – eu prometo que trago um buquê de flores para você.

Abraham escondeu as evidências de uma noite agitada com um par de óculos escuros. Ricky parecia intocado – a imagem do vigor. Discutia animadamente com Charlotte a respeito do avião. Era um jato Lineage 1000. Charlotte parecia orgulhosa, como se olhasse para um rebento.

- Ele é virgem, Ricky – contou.

Ricky soltou um assobio impressionado.

- Vai gostar dele, Bram – disse.

- Não me desestimule, Richard – Abraham, os braços cruzados, aguardava pelos demais.

Baixou levemente os óculos ao avistar Joshua aproximando-se.

- Aí está você – Abraham cumprimentou o rapaz.

- É mesmo um jato – Joshua ergueu os olhos para o avião. – Fantástico.

- Joshua – Charlotte empurrou uma prancheta em direção ao rapaz. – o que são as duas caixas misteriosas que você embarcou?

Joshua hesitou.

- Coisas pessoais – respondeu.

- Eu espero que não seja uma bomba.

- Mas é claro que não – o rapaz riu.

Charlotte não parecia convencida.

- Escutem, – ele começou. – eu me demiti por causa de vocês, certo? Meu emprego completamente estável. Tenham um pouco mais de fé.

- Deixe o garoto, Charlotte – Abraham riu.

A garota considerou com um sorriso maldoso.

- OK – consentiu.

Quando Charlotte afastou-se, Joshua sussurrou a Abraham:

- Essa coisa parece cara demais. Vamos ter strippers a bordo, a la Tony Stark?

- Por favor, não mencione...

- O quê?

- Apenas não mencione – Abraham pediu.

 

 

Eric apareceu ofegante acompanhado de um funcionário do aeroporto. Charlotte sorriu ao vê-lo.

- Garoto da Cozinha! – fez ela, ao abraçá-lo com força. – Achei que você não chegaria a tempo.

- Eu tinha que me despedir – Eric sorriu, ainda sem fôlego. – Afinal, quem sabe se você volta. Minha mãe nunca vai te perdoar por ter escondido isso dela. Ela não vai me perdoar, também.

Charlotte abriu um sorriso.

- Eu volto. Você tem a minha palavra. Dolores vai entender – disse, e, em seguida, se corrigiu. – Bem, ok, ela não vai. Mas ela vai nos perdoar.

- Veremos – fez ele. – Por favor, mande notícias.

Ela assentiu, e se afastou dele.

- Tchau, Eric.

 

 

O interior do Lineage era impecável. A tripulação mostrou-se pequena e atenciosa. Uma aeromoça serviu uma taça de champagne a Joshua. O garoto agradeceu com um aceno educado.

- Isso é muito melhor do que eu imaginava – disse.

Abraham isolara-se completamente. Não percebera ainda estar usando os óculos escuros quando se recostou à poltrona generosa. Audrey passou pelo corredor.

- Eu devo dizer – ela quebrou o silêncio. – O champagne foi um toque de gênio. Se eu ainda não estivesse convencida, me convenceria agora. Foi o que sobrou da lua de mel?

- Desculpe. O quê?

- Bem. Os jornais falaram a respeito.

Audrey indicou Charlotte à distância. A garota era parcialmente vislumbrada na cabine de comando – conversando com Ricky e com o co-piloto.

- Charlotte Hayes e Nick Brandon.

- Eu não faço idéia – Abraham balançou a cabeça. – Pergunte a ela.

- É claro que não – Audrey riu, bebendo de sua taça. Rumou à poltrona escolhida. Sentava-se ao lado de Joshua.

- E você é? – perguntou Audrey.

- Joshua Hall – ele apresentou-se. – Você é a geógrafa, não é?

Audrey deu um sorriso cândido.

- Quem diria que seríamos tratados com champagne? – Joshua perguntou.

- Eu sei – concordou Audrey. – Eu sei.

Taylor Christensen ocupava uma poltrona adiante. Usava um par de fones de ouvido e parecia haver apagado completamente, cochilando em silêncio. Charlotte dispensou-lhe um breve olhar enquanto caminhava, pelo corredor, até onde Abraham estava.

- O lingüista foi avisado sobre a mudança de roteiro? – ela perguntou. – O Sr. Moreau?

- Martin – Abraham simplificou. – Sim. Ele vai nos encontrar em Teerã.

- Bom.

- Ficou decepcionado por precisar pegar um vôo comercial quando nós vamos de jato particular.

- Lineage 1000.

- Você não vai conseguir me impressionar.

Abraham abriu o livro que carregava consigo. Era uma cópia de Harry Potter. Pensou ter encontrado sossego mínimo; então, de repente, a voz de Ricky ecoou pelo avião:

- Senhoras e senhores, apertem seus cintos. Nós vamos partir.

Abraham espiou de esguelha a janela próxima a si.

- Não se preocupe – disse Charlotte.

- Não vou.

Mas apertou levemente o braço da poltrona quando o avião começou a se mover.

 

 

- Acorde – ouviu a voz de Joshua. – Acorde, droga – ele demandou.

Abraham abriu os olhos. Estava alerta e ofegante.

- O quê? – perguntou. – O que aconteceu?

Joshua observava-o com estranheza.

- Você está bem? – quis saber.

Abraham endireitou-se sobre a poltrona onde a adormecera. Notou que o céu a esperá-lo do lado de fora era noturno.

- Sim. Estou bem – garantiu.

- Eu acho que estava tendo um pesadelo – Joshua disse. – ou algo assim.

Certificando-se de que Abraham estava inteiro, ergueu-se para retornar ao próprio assento.

- Eu disse alguma coisa? – Abraham perguntou.

- Você disse uma porrada de coisas – Joshua riu. – Já nem sei mais se é seguro estar com você por perto.

- Eu...

- Está tudo bem. Sério. Eu estava brincando.

Audrey e Taylor observavam o rapaz de longe. Abraham suspirou e desviou-se do olhar dos demais, apoiando a cabeça sobre o vidro da janela. Viu Charlotte chegar com um copo e um comprimido.

- Pegue – ela mandou.

Mas Abraham apenas a encarou.

- Vamos – insistiu Charlotte. – Ricky disse para lhe dar isso, caso algo acontecesse.

- Ele especificou o algo? – Abraham indagou.

Pegou o comprimido, mas dispensou a água; então, refletindo, aceitou o copo. Tomou a água de uma única vez.

- Obrigado – agradeceu.

- De nada.

Charlotte não parecia incomodada.

- Quanto tempo? – Abraham perguntou. Charlotte não reagiu. – Para chegarmos.

- Quatro horas – ela contou.

- Irã pela noite – ele riu. – Ficarão decepcionados.

Foi lembrado de um detalhe indesejável.

- Você e as outras garotas vão precisar tomar cuidado com o que vestem.

- Eu sei.

- Eu falo sério, Charlotte.

Charlotte ergueu as sobrancelhas.

- Eu também falo. Não precisa se preocupar.

Abraham esfregou os olhos. Agora Charlotte parecia observá-lo com um olhar mais preocupado.

- É melhor eu voltar a dormir – Abraham declarou.

- Acordo você quando chegarmos – a garota prontificou-se.

Charlotte não parecia conseguir ficar parada. Abraham sabia que ela iria à cabine para depois retornar. Vinha fazendo o mesmo percurso havia muito tempo – pelo menos até o momento em que Abraham simplesmente desaparecera.

- Vai ser difícil controlar você – Abraham sussurrou para si mesmo. Suspirou e fechou os olhos.

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