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Sep. 14th, 2009

Joshua levantou-se de sua cadeira vagarosamente. Antes de se dirigir até a copa para tomar um copo de água e matar dez ou quinze longos minutos de trabalho, espreguiçou-se. Das baias imediatamente próximas a sua, apenas uma estava ocupada. "A crise nos trouxe a necessidade de realizar uma contenção de custos!" foi a alegação do Recursos Humanos. Para ele a resposta era outra:

- Mais trabalho. Pra mim é só isso que siginifica! - disse o jovem para o homem oriental que esperava um expresso na máquina de café.

- Que é isso, Josh. A mulher trabalhava do seu lado há sei lá, quase um ano. Você deveria se sentir mal por ela! - respondeu o outro, observando enquanto Josh passava a mão sobre o cabelo castanho.

- Mas é claro que eu sinto. Mas Jin, a Tessa me ligou ontem, disse que já conseguiu um trabalho numa companhia no Vale do Silício que vai pagar menos de cem dólares a menos do que ela ganhava aqui, mas banca todas as despesas de aluguel, transporte, tudo. Logo, aqui só sobrou mais trabalho pra mim.

- Nossa! Que bom pra Tessa! Você não conta nada isso pra gente?

- Vocês não vão mais ter contato com ela, de qualquer forma. - respondeu rindo. - Mas ela pediu, disse que ia mandar um e-mail pra todo mundo, ou pelo menos pra todo mundo que ela gostava.


Os dois riram. Jin terminou seu expresso e voltou para sua mesa, já Josh encheu mais um copo de água e ficou encostado com o pé na parede observando o andar.
Todos trabalhavam de cabeças baixas. O silêncio majoritariamente dominava o ambiente, sendo quebrado apenas por um ou outro telefone tocando. "Supervisor Geral de TI!", pensou:


- Grande coisa! - disse em voz alta completando o ato. Voltou com o copo na mão para sua baia.

Por sua vez, a mesa passava a impressão de ter sido o olho de um furacão a menos de uma hora. Papéis abarrotavam-se entre livros e copos descartáveis. A faxineira do andar, aliás, já havia sido advertida diversas vezes para não tentar arrumar absolutamente nada alí. "Não está bagunçado, está desordenamente organizado", argumentava Josh. A única coisa que se salvava era uma pilha de livros guardada dentro de um pequeno armário num espaço sob a mesa. Eram títulos sobre História da Humanidade, Grandes Guerras Mundias e alguns pensadores clássicos. Era com eles que Josh passava boa parte da tarde, quando não precisava fazer mais nada além de esperar o horário de ir embora, o que muitas vezes era variável em função do horário que as pessoas de sua equipe conseguiam acabar suas tarefas.


Olhou novamente para a mesa e percebeu um pequeno post-it amarelo colado sobre a tela do seu monitor. "Ligar para Abraham Macfadyen" dizia o bilhete, seguido de um número de telefone celular.


- Filho de uma mãe! - disse em voz alta, atraindo o olhar do homem no computador ao lado. - Desculpe!


Pegou o telefone e ligou imediatamente. O telefone chamou quatro vezes antes de uma voz conhecida atender:


- Alô?

- Seu grande caloteiro! Ainda me deve aqueles 300 dólares que eu te emprestei antes da minha formatura! - falou Joshua, antes mesmo de se apresentar.

- Joshua Hall. O homem dos robôs que falam.

- Antes fosse isso ainda, Bram, antes fosse!

- Achei que já tivesse a um passo de fazer uma robô mulher que topasse uma noite de sexo com você.

- Idiota! Sabe que na atual situação não seria nada ruim. - disse rindo - mas na verdade atualmente eu sou o homem responsável por manter um sistema operacional estúpido rodando em perfeita sintonia, e praticamente é isso.

- Desperdício.

- Dinheiro! Somente isso que eu tenho pra te falar. - respondeu, enfatizando a frase - Mas me diga, por que raios você me ligou? Faz tanto tempo que não trocamos sequer um e-mail.

- Preciso te fazer uma proposta. - disse Abraham, alterando ligeiramente o tom de voz para tentar soar sério.

- Sorry, dude! Você já fez essa proposta pra mim alguns anos atrás e eu te expliquei que eu não curto caras. Mesmo você!

- Fique quieto e ouça - cortou Abraham secamente. - Estou em New York. O que tenho para dizer envolve dinheiro. Mas precisa ser pessoalmente.

- Ahn?

- É uma proposta de trabalho, não um programa, Joshua. Tem como me encontrar em algum lugar?

- Depende, Bram, que horas?

- O mais breve possível.

- Bem, faça assim. Anote aí meu celular e me ligue assim que puder. - respondeu o outro, rodando a cadeira e quase derrubando o telefone.

- Eu estou ligando para você agora mesmo, Joshua!

- Bem...

- Me encontre no Metropolitan.

- Quando? Eu não posso ir agora. Eu meio que trabalho.

- Quando sair daí. Tem o meu número?

- Sim, mas... por que o Metropolitan?

- Porque eu gosto dele. Porque me faz pensar na minha infância e em algodão doce - e Abraham desligou o celular.

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O departamento de História de Yale prosseguia sendo o mesmo que habitava as recordações nebulosas de Abraham. Alguns dos rostos familiares haviam sido substituídos por feições frescas. Uma moça gorducha aguardava no posto da secretaria. Ela não sorriu para Abraham. Usava um par de óculos de grau e aro negro.

- Eu sou Abraham Macfadyen. O Professor Hamlin me enviou. Estou procurando por Liza Joyner.

- Ela está ocupada – respondeu a gorducha. Não pareceu dar muita importância às credenciais ou impaciência de Abraham.

- Carolyn? Alguém?

Mas a gorducha sorriu como a sugerir que Abraham não estava com muita sorte. Indicou o rapaz a uma desconhecida que parecia seu perfeito oposto – magra e comprida como um poste. Parecia haver desistido de uma carreira de modelo prodigiosa para adotar ocupações mais acadêmicas. Ela vestia um suéter pouco lisonjeiro.

- Você que veio ver os arquivos do Professor Singh? – perguntou. Fez uma careta leve para Abraham. – Bem, por que te mandaram vir falar comigo? O Professor Singh está aqui. Pode falar com ele diretamente.

- Então estou perambulando há meia hora como um retardado por nada? – Abraham questionou. Sua insatisfação era sugerida através de um sorriso depreciativo com o canto dos lábios. – Mesmo?

A mulher ergueu as mãos num ato de redenção.

- Ei, não é minha culpa, OK? – disse.

- Eu não vou comer você. Relaxe.

As palavras pareceram acender uma centelha de desconfiança no rosto da estranha.

- O Professor Hamlin te mandou, não é? – perguntou.

Abraham apenas encarou a mulher

- Você é aquele assistente dele.

- Sim. O maluco. Sou eu mesmo.

Com uma expressão desfavorável, quase impossível de se decifrar, a mulher revelou onde Singh poderia ser encontrado; sua sala pessoal havia mudado algumas vezes durante os últimos dois anos. Agora atuava em um escritório maior – mais propenso a suportar a quantidade crescente de arquivos e livros.

- Laurence foi bastante generoso. Disse que você poderia ficar com tudo – sorriu Singh.

O cabelo e a barba branca do professor contrastavam perfeitamente com sua pele escura e enrugada. Ele ajeitou os óculos sobre o nariz, hesitando, os dedos erguidos sobre o teclado do iMac. Observou a tela contemplativamente.

- O que era digitalizado já lhe foi enviado.

- Eu recebi – Abraham respondeu.

- Ou você pode acessar diretamente a pasta pessoal de Laurence. Imagino que tenha a senha – disse. Encarou o rapaz com curiosidade. – Abraham, o que exatamente estão fazendo?

- Eu não tenho a menor, ínfima idéia – explicou o outro. – Só estou seguindo a corrente

- Porque eu vejo certo padrão com o que o Nathaniel estava fazendo.

- É o plano.

Fitaram-se em silêncio. Abraham tentou enxergar algum tipo de reprovação naquele olhar – mas o professor Singh não protestou, qualquer que pudesse ser sua opinião. Abriu um sorriso cândido.

- Pretende ficar por mais tempo? – perguntou.

- A idéia é voltar para New York o mais rápido possível.

Abraham repassava folhas de um arquivo que não levaria consigo. Via rostos conhecidos; escavações mais ou menos importantes. Recortes de jornais congratulando alguém cujo nome jamais voltaria a ser lembrado pelas grandes massas.

- Laurence me pediu que recomendasse um lingüista – ouviu a voz do professor. – Eu já lhe enviei os dados, mas acredito que não seja um desconhecido para você.

- De quem estamos falando?

- Martin Moreau.

Abraham assentiu.

- É, eu o conheço.

- É o melhor que eu posso recomendar – disse Singh. – Só espero que esteja disponível. Não sei muito bem o que ele anda fazendo.

- Farei com que esteja.

Colocou a pasta sobre a mesa do professor.

- Eu preciso ir – desculpou-se. – Obrigado pela paciência.

- Por nada. Mas, Abraham – Singh chamou. – Escute.

Abraham parou a caminho de abrir a porta.

- Sim?

O professor Singh vacilou. Comprimiu os lábios rapidamente. Depois, soltou um suspiro resignado, discreto.

- Apenas tenha em mente que nem aquilo que pode ser achado vale a pena ser procurado.

- Nem pela quantidade de dinheiro e fama certa? – Abraham deu um sorriso ácido.

- O tambor sempre soa melhor à distância, é o que dizem – Singh deu de ombros. – Mas – ele refletiu. – confio em Laurence, no final, ainda que de uma forma torta. Boa sorte.

- Boa sorte – Abraham desejou em retorno.

O próximo passo seria convocar o restante da equipe.

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A casa de Laurence em Montauk ficava a apenas cerca de vinte minutos de Amagansett, de modo que Abraham chegou tão logo Charlotte desligou o telefone com o professor. Ela abriu a porta e o esperou enquanto ele estacionava. Ele pareceu analisá-la brevemente O que quer que ele tivesse esperado encontrar, certamente  não teria imaginado o que de fato viu. Encontrou-a de cara lavada, olheiras profundas, os cabelos presos em um rabo-de-cavalo mal-ajambrado e enfiada em calças de pijama xadrez e em um moletom da Harvard Medical School diversos números maior do que o que seria apropriado para ela. 

- Você é Abraham – disse ela. – Sou Charlotte. Laurence já deve ter lhe explicado.

Abraham assentiu, trocaram um aperto de mãos e ela lhe indicou o interior da casa, que ele observou com curiosidade. Era uma casa muito grande e visivelmente cara, mas, dificilmente, se tratava daquilo que se esperaria pertencer a um bilionário. Ele não notou a presença aparente de nenhuma empregada, mordomo ou motorista na casa: Charlotte parecia absolutamente sozinha ali. Ela o conduziu até uma sala relativamente pequena, onde havia dois sofás e uma televisão absurdamente grande. Ele ocupou um dos sofás.

- Você bebe alguma coisa? – ela perguntou, se dirigindo ao bar no canto do aposento.

- Não, obrigado.

Ela não insistiu e serviu para si própria uma dose de whisky, que levou consigo ao ocupar o segundo sofá. O dia ainda estava claro, mas o relógio biológico de Charlotte estava bastante desregulado, de qualquer maneira. Ela havia acordado há pouco naquele dia, tendo conseguido dormir apenas quando o sol já havia nascido. Dolores permanecia no apartamento do Central Park West organizando o fim do casamento e Charlotte havia despachado as duas empregas de Amagansett para lá. 

- Laurence me disse que você aceitou a proposta. Ele explicou tudo a você? – ela perguntou.

- Acredito que sim. Ele explicou tudo a você?

Ela assentiu. Tomou um gole da bebida. Observou Abraham brevemente, tentando encontrar o que havia encantado Laurence. Ele não era facilmente impressionável. No entanto, Charlotte não conseguiu ver muito além.

- Você chegou a conhecer meu pai?

- Brevemente – Abraham respondeu. – Acompanhei Laurence algumas vezes a eventos do Instituto.

- Entendo – fez Charlotte. – Você gostava dele?

Abraham estranhou a pergunta. Especialmente a forma direta com que lhe fora proposta.

- É importante para você? – perguntou.

Charlotte não respondeu.

- Ele era competente – esclareceu Abraham.

- Não o suficiente, pelo que o fim dele prova – Charlotte deu uma risada fraca, sem felicidade. – Mas, de qualquer maneira, ele acreditava na importância do que fazia.

Abraham deu um sorriso torto.

- Seu pai era bom no que fazia. Confie em mim.

- Eu confio em Laurence. Ele parece ter você na mais alta conta. 

- Me satisfaz.

O olhar de Abraham transitou rapidamente. Recaiu sobre a televisão. Tentava encaixar aquele aparelho descomunal na vida que Nathaniel levara.

- Laurence me disse que às vezes você acompanhava o seu pai.

- Às vezes.

- Para onde?

- Egito. Grécia. Os lugares por onde começam os historiadores.

- Você gostava?

A questão pareceu subitamente íntima.

- Você me fez perguntas pessoais – disse Abraham. Misturava um tom jocoso com impassibilidade subliminar. – Acho que posso pagar na mesma moeda.

A garota brincou com o copo de bebida.

- Eu gostava.

- Mas sabe sobreviver – Abraham enfatizou a palavra. – lá fora?

Charlotte encarou-o, inicialmente um pouco chocada com a crueza da pergunta.

- Teremos a melhor equipe que você puder escolher – ela respondeu simplesmente. – Mas, sim, eu posso tomar conta de mim mesma.

- Bom. Então você sabe o que uma expedição desse porte significa.

- Eu sei.

- Tem mais alguém em mente para a equipe?

Charlotte hesitou um momento. Não era completamente verdade que ela não tivesse pensado em ninguém. Ela havia cogitado Jordan, e havia passado a noite anterior inteira ponderando se deveria entrar em contato. Jordan Greenberg havia sido um favorito entre os bolsistas que Nathaniel financiava com o Instituto. Mais do que isso, ele tivera uma importância especial para Charlotte anos antes. Ela balançou a cabeça, inadvertidamente. 

- Não, ninguém.

Abraham aceitou a responsabilidade com resignação.

- Há duas pessoas que tenho em mente. Um foi meu colega em Yale. Ele pode cuidar da área tecnológica. Pode operar qualquer sistema. O outro... eu imagino que você já conheça. Ricky Morelli – Abraham fitou Charlotte em silêncio; não foi duradouro. – Ele trabalhou para o seu pai.

Charlotte mordeu o lábio, um pouco desconcertada. A lembrança de Ricky Morelli lhe remetia ao período das buscas pelo corpo ou qualquer vestígio de seu pai. Todas elas mal-sucedidas. Sentiu-se subitamente desconfortável.

- Sim. Eu o conheço. Mas não o vejo desde a época em que – ela interrompeu a si mesma, como se tomasse fôlego – em que tudo aconteceu.

Abraham desviou o olhar.

- Ricky está...

Parou para ponderar. Onde Ricky estava?

- Vivo – completou.

Charlotte ergueu as sobrancelhas.

- Ainda terá muitas vagas em aberto – disse. – Supondo que eles aceitem.

Abraham deu um leve sorriso irônico.

- Não me diga.

Ele fez uma pausa breve.

- Bem. Eu tenho uma médica, agora. Sorte a minha.

Charlotte não disse nada. O comentário de Abraham chamou-lhe a atenção para o fato, até então esquecido, de que abandonaria a residência médica durante o período em que precisasse estar fora. Ela não sabia ao certo se isso a incomodava. Tomou o último gole de seu whisky e abandonou o copo sobre a mesinha no centro.

- O quanto você sabe sobre o objeto de pesquisa de meu pai?

- Sei o suficiente.

- O quanto isso te interessa profissionalmente?

- Me interessa o bastante para estar aqui, sentado na sua sala – ele explicou. – Está testando a minha vontade, Charlotte?

Charlotte balançou a cabeça.

- Não – disse. Pensou um pouco. – Bem. Talvez eu esteja – corrigiu-se.

- O que vamos fazer me interessa de todas as formas possíveis.  Não sou o cachorro do Laurence.

- E sobre a questão do dinheiro? – indagou a garota.

- Eu preciso dele. Você não pode ter limites.

- Eu controlo tudo o que era do meu pai.

- Teremos um gasto considerável com transporte – Abraham explicou. – Proporcional ao tamanho da equipe.

- E qual será o nosso tamanho recomendável?

Abraham não soube como responder de imediato.

- Opiniões divergem a respeito disso – contou.

- Dez pessoas?

- Eu consideraria um bom número – ele bufou uma risada. – Mas imagino que queira investir tanto quanto puder. Mais pessoas, mais especialistas.

- Estou em suas mãos.

Abraham encarou-a silenciosamente.

- Dez pessoas – decretou. – Ou menos.

- Você tem medo? – Charlotte indagou.

- Medo?

- De que algo aconteça à equipe.

- É claro que não – Abraham garantiu.

- Posso lhe dar todo o dinheiro necessário. Não faça economias por minha causa.

- Então temos um acordo.

Charlotte assentiu.

- E agora? – perguntou.

- Agora vou precisar manter contato constante com você.

Charlotte buscou um bloco e uma caneta na gaveta da mesa ao lado de seu sofá e se pôs a rabiscar com a mão esquerda.

- Tome – ela estendeu a ele o papel. – É meu endereço em Manhattan, embora eu não deva voltar para lá por enquanto. Também anotei meu novo número de telefone.

Abraham reconheceu o bloco como o receituário de Charlotte. A caligrafia dela era difícil de se compreender, mesmo para um especialista em hieróglifos. Ele dobrou o papel e o enfiou no bolso.

- Para qualquer coisa de que você precise – ela avisou.

- Obrigado – Abraham agradeceu.

- Devo providenciar alguma coisa?

- Não, nem pense nisso. Eu ainda vou ter muita coisa para fazer. Sossegue.

 Charlotte sorriu sinceramente pela primeira vez naquele dia.

- Muito obrigada por ter aceitado – disse.

Abraham arqueou uma sobrancelha, intrigado; esteve prestes a dizer alguma coisa – mas se calou. Eles despediram-se com um último aperto de mãos e Charlotte o acompanhou até a porta. Ela observou o carro sumir na estrada com atenção, incerta, mas estranhamente satisfeita por estar fazendo aquilo. Pela primeira vez em sete anos, as coisas pareciam ter algum sentido.

 

 

 A tomb now suffices him

for whom the whole world

was not sufficient.

 

 

A rotina de Laurence Hamlin era bastante particular – condizente a um homem que trazia costumes cultivados por mais de seis décadas de vida. Exigia o mínimo de contato humano possível; o que Laurence pretendera ao alugar uma casa em Montauk. Costumava escrever de um pequeno escritório com vista para a praia. O silêncio pesava como uma benção, longe da algazarra dos alunos de Yale – ou de uma Manhattan viva, com suas buzinas e letreiros luminosos. Quando era necessário ouvir, Laurence levava seus fones de couro preto aos ouvidos, embalado pela sinfonia Júpiter. Ali também estavam seus discos de Nat King Cole, arrumados em uma pilha perdida em meio a copos vazios, xícaras de café velho, um computador e livros – livros e mais livros.

Renata era a única companhia sólida de Laurence. Ela chegava pontualmente às seis da manhã, quando Laurence, havendo passado a madrugada desperto, ainda teclava com concentração. Ela preparava e servia o café.

- Minha irmã disse – Renata explicou. Seu sotaque era quase limpo. – que é assim que se adquire atrite precoce – e imitou o gesto de teclar. – O senhor precisa achar outras ocupações. Como correr, ou nadar.

Laurence observou a empregada com uma sobrancelha erguida. Renata sabia que seus comentários não eram bem-vindos – mas precisava falar. Viver com Laurence era conviver com um homem e sua indiferença brutal.

- O que sua irmã faz? – perguntou Laurence, despreocupado.

Renata explicou que Mariadalia começara sua carreira como babá e cozinheira. Ela agora era o que a irmã chamava de governanta, paga para vigiar duas crianças mais ricas do que um pequeno país subdesenvolvido. Fora Mariadalia que conseguira contatos em Montauk para Renata.

- Diga à sua irmã que – Laurence começou, recolocando os fones de ouvidos. – as chances de que ela entre em algum colapso nervoso causado por estafa profissional são bem maiores dos que as minhas – então, sim, fico com a minha artrite. Pelo menos terei um livro terminado. E não vou correr, certamente.

- Sobre o que é o livro do senhor?

Laurence voltou a observar Renata. Pesava o quanto daquela pergunta envolvia real curiosidade.

- Sobre a Idade Média – explicou. – Era um período detestável, na verdade, onde ninguém tomava banho – ele refletiu. Mirou a mesa cheia e teve consciência de que não pregava os olhos havia pelo menos 24 horas. – O que, aliás, eu preciso fazer. Se não se importar, é claro.

Ele colocou o computador em modo de espera e largou os fones. Renata nada disse enquanto o professor caminhava até o quarto, fechando a porta atrás de si. A escrivaninha de Laurence estava abarrotada de mantimentos consumidos durante uma madrugada inteira. Renata recolheu as louças, canecas – Laurence não parecia saber lavá-las para renovar suas doses de café –, o jornal e um cinzeiro cheio. Levou o lixo para a cozinha. Trouxera consigo, da rua, as compras semanais do professor – peixes, leite, iogurte, aspirinas, ovos e diferentes frascos de pimenta. Laurence comprava os próprios cigarros.

Mariadalia ligou enquanto Renata passava um pano molhado discreto sobre o posto de trabalho de Laurence, evitando deixar para trás evidências de que molestara a intimidade do professor – a escrivaninha de Laurence era seu santuário.

- Como está indo com o velho? – perguntou Mariadalia. – O que ele faz mesmo?

- Ele é um escritor – Renata explicou.

- Alguém ganha dinheiro com isso? – zombou a irmã.

- Ele também é professor. De Yale, eu acho.

Mariadalia suspirou.

- Yale, sei – e então parou; pareceu afastar a boca do telefone. Disse algo longínquo e ríspido. – Desculpe – sua voz tornou a invadir a linha. – Então. Yale.

- O que houve?

- É Francis, o pestinha. Essa criança sempre está com fome. Parece um saco sem fundo. Enfim, agora que falou, acho que os pais de Francis querem mandá-lo pra Yale.

- É mesmo?

- Ou para alguma dessas escolas de grande nome, você sabe, bem importantes. Estão meio que obcecados, mas o garoto só tem nove anos, então...

- Entendo.

- E depois, ele não consegue ficar parado. Nem sei como tira notas boas na escola. Mas estou reclamando demais. É que minhas únicas companhias nas últimas semanas só gostam de ver Disney Channel. Como vai o professor?

- Bem, ele está escrevendo.

- Ele é solteiro?

Renata fez uma careta, presumindo onde a irmã pretendia chegar. Desempacotou as compras.

- Bastante.

- Sei.

- E ele é muito velho, Mariadalia.

- E quem se importa?

Renata riu.

- Eu me importo.

- Renata, você tem a oportunidade de conhecer boas pessoas aí em Montauk.

Boas pessoas eram sempre pessoas com dinheiro.

- Eu sou a empregada – Renata admitiu com bastante lógica.

- Todas as empregadas podem ser Cinderellas.

- É claro. Podemos mudar de assunto?

Mas Mariadalia não respondeu. O telefone parecia mudo.

- Alô? – perguntou Renata. – Alguém aí?

Escutou vozes ao fundo; alguns minutos depois, a respiração enfezada da irmã.

- Oi. Desculpa – disse Mariadalia. – Eu preciso ir. Preciso levar a Brooke pra aula de balé. Depois vamos passar no Mommy & Me.

- Tudo bem.

- Boa sorte – Mariadalia desejou; embora Renata não compreendesse o motivo.

Desligou o telefone. Renata limpou a cozinha e o lavabo minúsculo que utilizava. Preparou um almoço que Laurence não veio buscar. O professor apenas emergiu de seu escritório quando o relógio apontava três horas da tarde; prontificou-se a abrir a geladeira. Inspecionou as compras que Renata largara ali dentro. Os cabelos grisalhos estavam amassados, havendo secado naturalmente. Ele tirou o iogurte e algumas frutas que haviam sobrado. Renata surgiu, vinda da sala, com o esfregão.

- O senhor precisa de alguma coisa? – perguntou. – O almoço está aí, no papel alumínio. Ali – indicou uma das prateleiras.

- Estou bem assim – Laurence respondeu. – Mas posso lhe ensinar a fazer vitaminas, se quiser – e pegou uma embalagem de Ovomaltine.

- Então – Renata hesitou. – Sobre qual assunto da Idade Média o senhor está escrevendo?

Laurence deu uma risada baixa.

- Você realmente quer saber, Renata?

- Bem, por que não? Quero dizer, eu e o senhor não falamos sobre muitas coisas, mesmo...

Não parecia haver ressentimento naquela mera constatação.

Laurence esfregou o cenho.

- O que sabe sobre a Idade Média? – perguntou.

Renata deu de ombros.

- As pessoas eram meio malucas naquela época.

Laurence sorriu. A atenção de Renata foi desviada por um ruído incomum. Parecia ser o de um carro estacionando com certa proximidade. Ela espiou o movimento através da janela. Renata reconheceu um carro grande, uma mulher loira e alta descendo. Mas decerto havia algum engano. Laurence não recebia visitas. Empunhou o esfregão como uma lança, vendo a estranha aproximar-se.

- Espero que não seja algum menino sem vida brincando pela praia – resmungou o professor, indicando haver escutado o breque profundo do carro. Laurence largou suas frutas e iogurtes dentro do liquidificador e, pelo vidro, observou o terreno à lateral da casa.

Ele pareceu estranhamente surpreso.

- Oh, bem – disse.

- O senhor a conhece?

Laurence suspirou.

- O suficiente. Renata, por favor, a abra a porta.

Renata acatou a ordem antes mesmo que Charlotte pudesse tocar a campainha. As duas moças encararam-se com curiosidade quando o vão da porta revelou uma à outra. Charlotte deu um sorriso ameno. Trazia um embrulho nos braços.

- O professor Hamlin está? – perguntou.

- Sim – Renata respondeu. – Pode entrar.

Permitiu que Charlotte passasse. Era uma mulher muito mais alta do que Renata jamais poderia ambicionar ser. A empregada fechou a porta – mas não foi a lugar algum. Quando Laurence surgiu, vindo da cozinha, Charlotte passeava os olhos pela casa alugada. Renata esperava como se uma bomba pudesse explodir.

- Gosta? – perguntou Laurence.

Charlotte foi resgatada do estudo por sua voz. Sorriu ao vê-lo.

- Eu não tive parte na escolha da decoração – justificou Laurence.

- Me parece boa – Charlotte respondeu.

Laurence assentiu – lançou um olhar a Renata, por cima do ombro de Charlotte. Renata retirou-se em silêncio, resignada.

- Eu li sobre o seu noivado. Belo feito.

Charlotte deu uma risada melancólica.

- Não precisa me dizer. New York inteira tem uma opinião a respeito.

Ela baixou os olhos para o embrulho que trazia apertado entre os braços.

- Eu vim lhe devolver o presente – e estendeu o objeto a Laurence.

Laurence recebeu o embrulho com estranheza, sentindo que segurava uma criatura frágil. Descobriu a ponta verde do vaso de jade se projetar para fora do papel.

- Não deixou de ser um presente apenas porque não irá mais se casar – disse.

- Não me pareceu justo.

Laurence estalou a língua.

- Ficaria melhor com você. Eu já não tenho espaço na minha casa.

Mas Charlotte – de braços cruzados – não parecia disposta a tomá-lo de volta.

- Você poderia tê-lo enviado em uma caixa. Mas, ao contrário, está aqui. Não veio devolver um vaso. A menos que esteja planejando fazer isso com todos os convidados.

- Vim falar com você, Laurence.

Satisfeito, Laurence pousou o vaso sobre uma cômoda, sabendo que não precisaria se dar ao trabalho de desembrulhá-lo.

- Estou ouvindo.

Charlotte hesitou. Cruzou os braços e contornou um dos sofás, tomando assento.

- Eu estou pensando em talvez vir a dar continuidade ao trabalho do meu pai – contou.

A notícia deixou Laurence sinceramente surpreso – mas foi uma surpresa que recebeu com serenidade.

- Teria alguma coisa a ver com a sua decisão de interromper o noivado? – perguntou.

Mas Charlotte não soube dar uma resposta conclusiva.

- Não. São assuntos não-relacionados.

- Entendo.

- Eu tenho o dinheiro, Laurence, mas não o contato. E acho que por minha própria culpa. Deixei que o instituto morresse.

Ela lançou um olhar anestesiado ao professor.

- Imagino que também sinta um pouco de revolta.

- O instituto era o sonho do seu pai, Charlotte. Não acho que seja obrigação de alguém carregar nas costas o sonho de outro homem.

- Eu sinto que não fui justa, de qualquer maneira.

- Pode resolver isso facilmente. Apenas dê o dinheiro e as coisas voltam a funcionar.

- Não é apenas o instituto.

- Não?

Charlotte parecia considerar antecipadamente a reação de Laurence.

- Quando meu pai...

Ela não continuou. Laurence tampouco insistiu. Charlotte pulou a introdução:

- Ele estava em busca de algo importante, não? – perguntou.

- Bem – Laurence julgou melhor sentar-se. Limpou a lente dos óculos em um lencinho xadrez que trazia dentro do bolso – Depende do que podemos chamar de importante. Monetariamente importante – pouco provável. Mas era importante para o seu pai, e era importante para mim. E, portanto, era importante para a comunidade científica e acadêmica, embora não seja um assunto no qual a maioria dos historiadores ou pesquisadores decida se deter...

Charlotte esperava com paciência.

- Porque não há muitos dados a respeito, simplesmente. Mas seu pai gostava de caçar castelos invisíveis. Eu mesmo o teria acompanhado na caçada.

Mas Laurence não o fizera. Julgara estar velho demais para se embrenhar em uma expedição. Nathaniel recebera a notícia com a consternação esperada – porque aquele momento chegaria, quer ele quisesse ou não. Um dia, o mentor não poderia mais seguir seu pupilo. O tempo vinha bater à porta de todos.

- Responde à sua pergunta? – ele indagou.

- Sim – respondeu Charlotte. As palavras de Laurence serviriam de prenúncio para que tomasse fôlego. – Eu quis saber porque... tomei a decisão de terminar o que meu pai deixou inacabado.

Laurence arregalou os olhos.

- Desculpe?

- A coroa que meu pai estava buscando – Charlotte explicou. – Eu estou disposta a achá-la. Terminar o que ele pretendia.

- Charlotte. Você sabe o que está dizendo?

- Sei. Foi por isso que vim atrás de você. Eu não sei por onde começar. Mas dinheiro não é o problema.

- Você quer que eu lhe indique alguém?

Charlotte não precisou confirmar.

- Não é tão simples.

- Eu sei.

- Seu pai adquiriu experiência o suficiente para que pudesse viajar com equipes relativamente pequenas. Às vezes, ele mesmo era a própria equipe. Mas você vai precisar de pessoas, Charlotte.

- Eu disse, dinheiro não é um problema.

- Você não entende. Há um estigma no que seu pai estava fazendo, e na forma como tudo terminou.

Charlotte desviou o olhar.

- Não acredito que qualquer pessoa queira insistir.

- Você conhece todo mundo, Laurence – Charlotte acusou.

Havia um pouco de amargura na denúncia. De certa forma, também, agressividade, embora o humor taciturno da garota disfarçasse certos arroubos, escondendo a sujeira sob o carpete.

- É verdade – Laurence concordou. – É uma maldição que eu não queria.

Pesquisou nas gavetas empoeiradas que existiam em sua mente. Que resposta poderia dar? Ele não tinha meios de trazer conforto.

- Ficou subitamente interessada em História, então? – indagou.

- Só em uma parte dela – Charlotte não vacilou.

Ela parecia falar sério. Laurence não conseguia pensar em uma única razão que pudesse impedi-lo de dizer o que Charlotte queria ouvir.

- Talvez eu tenha alguém que possa indicar.

Charlotte pareceu aliviada.

- Quem é?

- Um ex-aluno meu. O que ele faz é muito próximo do que seu pai fazia. Mas não posso prometer nada, Charlotte. Entendeu?

- Entendi.

- Você pretende voltar para Manhattan?

- Não. Acho que vou ficar um pouco em Amagansett.

Parecia uma atitude coerente – Manhattan provavelmente fervia como uma caldeira de boatos àquela altura.

- Certo. Amagansett. Me dê um dia ou dois. Eu vejo o que posso fazer por você.

- Obrigado, Laurence.

Laurence deu um sorriso fraco. Percebeu, naquele instante, que o que fazia era tanto em seu próprio nome como no de Charlotte. A promessa lhe trouxe conforto; e então teve certeza de que iria cumpri-la.

Quando acompanhava Charlotte até a porta, estendeu o vaso embrulhado à garota.

- Charlotte – disse.

Charlotte olhou para trás – e para o vaso. Aceitou o objeto sem que precisassem trocar palavras. Ela voltou a aninhá-lo entre os braços.

- Obrigada – despediu-se.

Laurence observou-a caminhar de volta ao carro com vigilância quase paternal. Charlotte ligou o motor e partiu. Laurence fechou a porta. Revirou suas cadernetas caóticas atrás de números de telefone.  Renata veio bater de leve ao batente de seu quarto.

- O senhor precisa de ajuda? – perguntou.

Laurence recusou com um balançar de cabeça.

- Não, obrigado.

Havia encontrado o caderno específico que procurara. Era pequeno, anteriormente uma agenda telefônica, capa de couro pintado de azul. Deixou que pousasse sobre a escrivaninha enquanto pensava. A tela do computador acusava uma página de Word preenchida pela metade. Laurence ergueu o fone do gancho.

 

 

 

Era um entardecer de domingo perfeito. O céu estava surpreendentemente limpo depois de uma chuva quase torrencial, havendo desabado suas águas sobre o Michigan como uma praga bíblica. A brisa fresca – gelada – soprava por entre as árvores, pouco convidativa àqueles que teimavam em peregrinar pelas ruas. O inverno chegaria logo. A estação indecisa do outono passaria, folhas secas dando lugar ao gelo, ao frio sólido. Crystal Falls desapareceria sob um colchão macio de flocos brancos. O limpador de neve abriria seu caminho lamacento, permitindo, com todas as suas precariedades, que a vida continuasse.

Mason estava sentado ao alpendre da própria casa, balançando suavemente a cadeira. A caneca de whiskey quente barato que bebia jazia fria sobre um de seus joelhos secos. Mason sentia o ardor leve do frio do metal transpassar o tecido de flanela surrado que usava como um par de calças. Ele deveria se importar – Mason deveria chatear-se com o whiskey arruinado, com as calças velhas. Deveria estar zangado com a viúva Stamp, que garantira não ter ratos no porão, expulsando-o a vassouradas, afirmando que aquele som – aquele correr frenético de patinhas – era causado pelos espíritos das crianças que habitaram, anos antes, sua casa velha – e que Mason as deixasse em paz.

Tudo aquilo – o whiskey frio, a dor de cabeça latente, crescendo no ponto em que a viúva Stamp acertara o cabo de vassoura – poderiam ter deixando Mason Collins insatisfeito. Mas o homem somente fechou os olhos. A música natural da cidade conseguia acalmá-lo, ainda que por momentos breves. Era a música que escutava desde a infância. Prestes a completar sessenta anos, Mason vivia a poucos metros da casa onde nascera, compartilhando a mesma calçada com o mundo que conhecia desde a década de trinta, quando as árvores de Crystal Falls ainda assobiavam, a neve ainda caía, o mundo ainda girava. Mason não sabia estar outro lugar. Lembrava-se pouco da única viagem que fizera para fora do estado. Seu pai colocara Mason no lombo da caminhonete.

- Segure-se – ele havia mandado. – E não deixe que te vejam.

Mason havia se escondido sob uma lona velha e empoeirada; aguardara. A caminhonete sacolejou por muitos quilômetros antes de pararem em um motel à beira de estrada. Estavam deixando o condado de Iron. O pai recompensou Mason com um refrigerante – disse que não precisaria mais se esconder. A Coca-Cola forte desceu pela garganta do garoto como melado. Mason estava grato, embora ainda não entendesse a brincadeira. Dormiu como um anjo.

A próxima recordação era a de cruzar a fronteira com Wisconsin. Mason não encontrou nenhum tipo de magia ao deixar o Michigan. As montanhas ainda pareciam as mesmas; também eram parecidas as árvores. O pai parou em um posto para abastecer e comprar churrasco. Parou, novamente, em um galpão escuro, quando a lua já brilhava no céu, indicando o lento cair da madrugada. Aquela seção da viagem era algo que Mason pensara ser maçante. Aguardara o pai dentro do carro, bafejando sobre o vidro sujo da caminhonete, desenhando figuras que desapareciam logo após o dedo de Mason delinear suas formas. Cochilou algumas vezes.

Quando o pai reapareceu, trazia uma caixa pesada consigo. Depositou a mesma caixa sobre a caçamba da caminhonete, o veículo inteiro balançando àquela súbita adição de peso. Mason queria descobrir o que havia ali dentro – qual era o segredo. Abriu a porta e colocou o pé para fora, mas ouviu o pai, ríspido, assobiar.

- Não. Você vai comigo, Mason.

Mason obedeceu. Fizeram o caminho de volta, deixando Wisconsin para trás. O pai servia como rádio. Ele cantava para Mason – as canções típicas, os hinos –, interpretava um apresentador de perguntas e respostas. Imitava com perfeição, a ponto de fazer Mason chorar de rir. Então, quando chegaram a Iron, o pai pediu para que o garoto voltasse a se esconder. Mason ficou cara à cara com a caixa. Não soube adivinhar o que ela poderia conter – porque era uma caixa de madeira simples, não muito diferente daquelas que usavam em armazéns. Mason soube apenas o que haviam trazido de Wiscosin quando a polícia bateu à porta da casa. A mãe de Mason chorou, inconsolável, atirando coisas, enquanto o pai era levado pelo mesmo policial que o garoto via correr atrás dos adolescentes vadios da cidade. O pai ainda tentou lançar um sorriso encorajador ao filho. Ele não voltou. Nunca mais. A mãe dissera: se é assim que é, assim será.

Mas Mason guardava aquela recordação clara de camaradagem que compartilhara com o pai na caminhonete vermelha. Havia sido um dos pontos altos de sua infância. – uma aventura, uma breve espiada no mundo além de Crystal Falls. Para sempre se lembraria do pai como aquela figura jovial, cabelo preto cortado reto, sorriso gatuno – um sorriso que Mason ainda não compreendia bem à época, mas que agora, em sua própria velhice, fazia sentido.

Eram aqueles os dias nos quais pensava, os olhos fechados, o whiskey congelando lentamente. Mason inspirou com força. As mãos estavam doloridas do trabalho mecânico – porque ele se recusava a aceitar a aposentadoria, consertando encanamentos e carros.

E então, quando finalmente abriu os olhos, viu o garoto.

Ele atravessava a rua de Mason, curvado, olhando para trás como um animal em fuga. O garoto estava encharcado – da cabeça aos pés – os cabelos escuros cobrindo a testa pálida. Decerto viera sob a chuva, indiferente à mesma. Caminhava resoluto, abraçando o próprio corpo. Ele embrenhou-se na mata que crescia em um dos jardins abandonados.

Mason conhecia o garoto; e conhecia aquele tipo de reação. Pousou o whiskey sobre o chão e se ergueu da cadeira. A rua estava úmida, cheirando a cachorro molhado, praticamente deserta. Mason seguiu a trilha do garoto. O matagal tinha perfumes incontáveis de plantas que ali cresciam sem permissão. Mason, por um momento, pensou haver perdido o rastro do menino. Mas, subitamente, ouviu um arquejar baixo. Tentou se guiar através do som, evitando ser confundido pelos demais sentidos. Aquele arquejo parecia conter raiva. Mason afastou os galhos pegajosos de um arbusto. As folhas revelaram o garoto, costas dadas para Mason, parado em um pequeno ponto a formar uma clareira. Ele parecia tremer; escondia alguma coisa sob o moletom ensopado.

- Abraham? – Mason chamou.

O garoto, surpreso, voltou os olhos para o homem. O cabelo escuro pingava. Mason não pôde evitar o choque – Abraham tinha os dentes cerrados, tremendo de frio.

- Meu Deus, você está bem? – perguntou Mason.

- Sim – e Abraham evitou encará-lo. Suspirou. – Estou bem.

- Filho, por que não passa lá em casa? Pode pegar uma toalha.

Mas Abraham negou a oferta generosa – balançou a cabeça.

- Obrigado, Sr. Collins. Mas não.

- Para onde está indo?

- Para casa.

 A forma como ele parecia segurar o abdômen preocupou Mason.

- Abraham, você está ferido?

O garoto não prestou atenção à pergunta. Ele encarava o chão com frieza incomum para um garoto tão novo. Dez anos, Mason calculava. Abraham ainda era pequeno e magro. Os joelhos de seu jeans estavam rasgados – talvez de propósito; talvez não.

Mason ergueu a mão para puxar o garoto.

- Aqui, deixe-me ajudar.

Então viu o brilho prateado da arma. Era um revólver pequeno. Abraham já não parecia fazer tanta questão de escondê-lo. Ali, parado, os cabelos viscosos lambendo seu rosto fino, encarava o nada como se contemplasse a grande decisão de sua vida. Olhou para a arma que deixara Mason perplexo. Encarou o homem.

- Eu vou matá-lo – disse Abraham. E parecia falar a verdade. – Eu juro por Deus que vou matá-lo.

 

 

 

Ele despertou repentinamente. Era o mesmo sonho – reprisado outra vez, como uma canção em eterno loop. Voltava àquele lugar com certa freqüência; embora a freqüência houvesse diminuído desde o final da adolescência. Ainda sentia a arma imaterial que tivera em mãos. Era quase fria. Um pedaço de metal indistinguível.

O telefone tocava. Abraham afastou as cobertas para que pudesse se sentar. Agarrou o aparelho.

- Sim? – atendeu. – O que é?

- Abraham – ouviu a voz conhecida de Laurence.

O rapaz fechou os olhos por alguns instantes, pressionando o cenho, suspirando – a cabeça latejava levemente.

- Ah, é você – resmungou.

- Você está bem?

Abraham tateou o próprio corpo. Estava inteiro e nu. Havia um número de telefone anotado sobre sua palma, escrito com caligrafia feminina casual. Uma garrafa de vinho e duas taças vazias estavam largadas sobre o chão.

- Se precisar de tempo para se recompor – sugeriu Laurence.

- Estou aqui – Abraham, alerta, assegurou. Colocou-se de pé; com o telefone preso entre o ombro e o queixo, vestiu as calças jeans escuras. – O que quer de mim?

- Gosta de New York no outono?

- É uma pergunta ou um convite?

- Um convite. Eu preciso falar com você, mas sinto que um telefone não é o meio de comunicação mais recomendável – disse Laurence. – Conhecendo você como conheço.

- Quer que eu vá encontrá-lo em New York? – Abraham encarou a sugestão com incredulidade. – Onde exatamente você está?

- Há uma passagem – Laurence ignorou-o. – em seu nome, no O’Hare. Não vai ter despesa alguma.

- Laurence, não é tão simples quanto pegar um bote.

- Eu acho que simplifiquei bastante a burocracia.

Abraham caminhou até um dos janelões sem cortina. O sol pálido de Chicago queimava suas vistas.

- Eu ligo mais tarde – ele disse. Desligou o telefone.

Foi até o banheiro. Seu reflexo era o mesmo – o mesmo homem que perseguia o pequeno Bram desde a mais tenra idade. Aquele homem precisava fazer a barba. Pegou o aparelho de barbear, contemplando a lâmina; mas desistiu. Inclinou-se sobre a pia, olhando profundamente para os próprios olhos.

- Acorde – mandou. Acertou um tapa forte contra o próprio rosto. – Acorde, idiota – ordenou uma vez mais.

O próximo golpe conseguiu tirar-lhe sangue. Abraham tocou o lábio ressecado e cortado. Observou as pontas dos dedos manchadas de vermelho. Sorriu para o espelho.

- Merda – disse.

 

 

 

Foi uma surpresa para Laurence abandonar o escritório momentaneamente – perto do anoitecer – e encontrar Abraham dentro de sua cozinha. À primeira vista, Laurence, alheio, não percebeu ter companhia. Tencionava ligar a torneira e encher um copo de água; nada além. Então, atraído por um movimento, reparou que a porta dos fundos estava entreaberta; em meio à escuridão, adentrava figura alta, sacudindo a jaqueta que usava, tentando livrar-se de algo invisível. Laurence acionou o interruptor. Ele e o desconhecido trocaram um breve olhar inusitado de reconhecimento em face da nova iluminação. As feições de Abraham – ao ver o professor – não exibiam felicidade.

- Eu deveria matá-lo – disse o rapaz. – Por ter me feito vir até Montauk.

Se a Morte tivesse forma física – e se estivesse ali para buscar Laurence em particular – habitaria o corpo de Abraham. O rapaz estava vestindo negro da cabeça aos pés. Tinha olheiras profundas sob as pálpebras, o que indicava que havia bebido muito ou matando madrugadas a fio – talvez uma combinação saudável dos dois.

- Como conseguiu entrar? – Laurence perguntou.

Abraham deu um sorriso cínico. Mostrou a chave que Renata costumava guardar sob o capacho. Laurence praguejou.

- Você chamou, eu vim – explicou Abraham. – Mas escute a merda da campainha da próxima vez.

- Eu trabalho com música. Pensei que a criada estivesse por aqui.

O rapaz depositou a chave sobre o balcão.

- Bom vôo? – perguntou o professor.

- Eu prefiro não falar a respeito – Abraham tinha um tipo de indisposição em relação a voar que fazia com que seus pés quisessem ficar bem grudados ao chão. – Mas gosto mais da sua casa.

- Estou surpreso. Ou, pelo menos, imaginei que seria mais teimoso. Estava quase lamentando ter comprado a passagem. E você, é claro, não me ligou, como disse que faria. Mas eu deveria saber.

- Não tive tempo.

- Ao menos está aqui. Desculpe por não recebê-lo com um pouco mais de requinte.

- Como vai o livro?

Laurence suspirou.

- Em progresso – ele deu de ombros com indiferença natural. – Quer beber alguma coisa?

- Não preciso.

- Eu ficaria levemente decepcionado se não pudesse seguir o protocolo do ritual de socialização. Beber algo é mandatório. E, depois, você veio de longe.

- Chicago – Abraham rebateu. A vida que levava havia lhe proporcionado uma visão única a respeito de geografia. Tinha consciência de que aquele fato explicava parcialmente a razão de Laurence saber que, o que quer que pudesse acontecer, ele estaria ali, como o próprio ceifador – ou em qualquer outro lugar no qual viesse a ser requisitado; com chuva, sol ou tempestade.

- Eu insisto – disse Laurence. – Preciso de distração – ele estalou os dedos da mão direita, como se estes houvessem enferrujado. – E você precisa me ouvir

Abraham cruzou os braços. Considerou a proposta.

- Certo. Como quiser – consentiu.

Laurence serviu dois copos de tônica Schweppes gelada. Logo conversavam na sala – papel de parede verde encimando painéis de madeira –, bebendo e fumando, acompanhados pelo silêncio da praia. Abraham fumava de forma recreativa. Laurence jamais o vira carregar um maço de cigarros durante os anos em que se conheciam. Em seus tempos de calouro de Yale, quando os demais estudantes pareciam achar um acesso fácil às drogas, o rapaz sempre mantivera a ficha relativamente limpa – ao menos no que dissesse respeito a injetáveis e inaláveis.

- O assunto, enfim – Laurence cortou a cerimônia. – Lembra-se de Nathaniel Hayes?

Abraham encarou o professor.

- Sim.

- Eu presumo que saiba o que houve com ele.

- Ele está morto – Abraham afirmou.

Laurence fez um breve silêncio. Inspirou a maresia suave.

- Sim, está.

- E o instituto foi descontinuado como conseqüência. Eu sei o que todos sabem.

- Não o chamei para falar do instituto.

- Ainda espero por um bom motivo para estar aqui – Abraham girou seu copo de tônica entre um punho fechado, distraído. Estava levemente curvado entre as duas pernas abertas, os cotovelos apoiados sobre os joelhos, como se contemplasse o inferno sob os pés. Tomou um gole da tônica. – Mas não imaginei que pudesse ser Nathaniel Hayes.

- Não ele. A filha dele.

Abraham esperou.

- Charlotte Hayes.

- Não me diga que ela se perdeu também.

- Na verdade, está muito viva; o fim do noivado dela estampou o jornal de ontem.

- Ah – Abraham deu um sorriso de entendimento. – Foi ela que destruiu as bases da família do partido republicano.

- Como sabe? – perguntou Laurence.

- Minha parceira de metrô não conseguia calar a boca a respeito disso. Parece que ela largou um bom partido. O próximo presidente dos Estados Unidos.

- Então sabe quem é.

Abraham assentiu.

- Ela está interessada em retomar a expedição que Nathaniel deixou inacabada.

Abraham parou com o copo de tônica a caminho dos lábios. Baixou a mão.

- Está falando sério? – perguntou.

- Sim.

- Por quê?

- É uma questão pessoal, Abraham – com muitos pormenores atrelados.

- Certo. E quer que eu a ajude?

- De certa forma.

- Está brincando comigo?

- Pareço?

Os olhos de Laurence não carregavam ironia.

- Eu só confiaria em duas pessoas. Uma delas está morta.

- E eu sou a sobra que viveu.

- Se é assim que prefere pensar. Mas imaginei que gostaria de considerar a importância histórica da expedição. Eu estou velho, Abraham. Não é algo que eu possa fazer eu mesmo. Sabe pelo que Nathaniel estava procurando, não é?

- Não precisa me dizer.

Laurence obedeceu – era o bastante. Pareceu contemplativo durante alguns segundos.

- Saber o que houve com Nate... conhecer seu paradeiro... trará um pouco de paz à filha dele. E a mim também, no fim.

- Está me chamando para uma expedição arqueológica ou para uma missão de resgate?

- Estou convidando-o a considerar que uma coisa possa levar à outra.

Abraham observou Laurence com solidariedade mínima. O desaparecimento de Nathaniel, – e morte presumida – sete anos antes, não parecia haver chocado o professor mais do que a própria rotina. Laurence continuara seu trabalho, continuara a castigar os alunos displicentes, continuara a discordar do reitor quando acusado de um óbvio elitismo; mas existia uma razão oculta em sua determinação durante as poucas semanas que seguiram à notícia. Laurence trabalhara o dobro para não precisar pensar. Abraham sempre imaginara que o professor guardava um pouco de culpa pelo acontecido – como se houvesse incitado Nathaniel a tentar o impossível. A recente conversa com Charlotte parecia haver reavivado o sentimento de remorso.

- As buscas se encerraram há muito tempo, Laurence. Ele era um bilionário. Nem todo o dinheiro que tinha pôde encontrá-lo. Por que acharia que...

- Abraham – Laurence calou-o com uma palavra. – Eu procuro pensar que não cometo o mesmo erro duas vezes, mas que insisto nos meus acertos. Instruí você como instruí Nathaniel. Você pode dar continuidade ao que ele fez – e frisou: – Ficando vivo. O que houve com Nathaniel foi um acidente horrível. Não há razões para acreditar que o mesmo aconteceria a você.

- Me diga do que ele morreu.

Mas Laurence não tinha nenhuma resposta. Ninguém tivera. Os jornais e noticiários da época haviam sido forçados a enterrarem o assunto, enterrando, com isso, o cadáver inexistente. Manifestações de luto aconteceram em algumas das universidades e faculdades por onde Nathaniel Hayes espalhara seus pupilos. Abraham lembrava-se de ver colegas vestidos de preto. Presenciara minutos de silêncio pelo campus.

- E a filha? – perguntou.

- Charlotte?

- O que ela faz?

- Charlotte é médica.

- De que uma médica me serve?

Laurence ergueu as sobrancelhas diante da obviedade da resposta. Abraham refez sua colocação:

- O que eu quero dizer é que não posso me responsabilizar por levar a campo alguém que nunca esteve lá – explicou.

- Ficaria surpreso. Charlotte pode não ter formação, mas já participou de algumas das iniciativas de Nate. Eu mesmo tive a oportunidade de acompanhá-los – Laurence tomou um pouco de sua tônica. – Eram outros tempos.

- Então ela está ciente dos riscos?

- Eu acredito que sim. Ela já passou da época de sonhar com pôneis.

E observou seu antigo pupilo com expectativa disfarçada sob uma máscara de superioridade.

- O que me diz, Abraham?

O rapaz fitou o professor.

- Laurence. Se tivesse me pedido para chegar até a China de jangada, eu iria. Eu lutaria com ursos polares. Desde que eu soubesse que há uma boa razão para fazê-lo. Eu não quero, – eu não posso – a essa altura da vida, ser uma babá.

- Além de um cheque generoso, e vou deixar você pensar no número de zeros, terá o prazer de dividir os créditos do achado. Você, Charlotte, e quem mais estiver com você.

- Parece ter certeza de que vou achar o que quer que eu ache.

- Confio em você.

Abraham desviou o olhar, refletindo. Ele pressionou o copo que segurava como se quisesse quebrá-lo.

- Vai considerar a minha proposta? – Laurence insistiu.

- Não – Abraham negou com prontidão. Voltou atrás. – Sim. Merda, sim. Eu não sei nem porque estamos tendo essa conversa.

Laurence não recebeu sua vitória com um sorriso.

- Sabia que aceitaria – respondeu. – Eu o conheço. Você não veio aqui para se divertir, Abraham.

- OK.

- OK?

- OK. Vamos lá. Estou pronto.

- Não precisa se preocupar com a possibilidade de estar perdido apenas com uma médica. Charlotte controla uma fortuna invejável. Ela vai contratar quem você recomendar. Ela também se responsabilizará pelos veículos e equipamentos no geral. Sobre material – Laurence inclinou-se para pegar uma caderneta deixada à mesa de centro. Cortou uma folha com um número anotado. – O Professor Singh ficará feliz por ceder o que é de posse dele em Yale. E meus arquivos também, desnecessário dizer. Conhece o processo.

Abraham dobrou o papel antes de guardá-lo em um dos bolsos. Tocou algo inesperado e inconveniente – um pacote de camisinhas. O rapaz pigarreou.

- Charlotte. Eu preciso do contato dela também.

- Sim, é claro. Mas, considerando o pequeno escândalo do ano, não acho que o número de telefone dela ficará disponível tão cedo. Já que está aqui, pode ir visitá-la. Ela mora em Manhattan, mas está provisoriamente em Amagansett.

Abraham ouviu o trinco da porta de entrada se abrir. Laurence, passando o endereço, não pareceu incomodado.

- Eu vou telefoná-la de antemão – disse. – Agora que já tenho quem recomendar.

Uma garota surgiu repentinamente na sala. Era Renata. Ela tinha a boca aberta, pretendendo dizer algo a Laurence, e um saco de papel pardo em mãos. Parou ao ver Abraham. Fez uma careta cômica constrangida e se retirou em silêncio, dando passos para trás, parecendo haver penetrado um recinto sagrado.

- O que foi isso? – Abraham perguntou.

- Minha empregada, Renata – Laurence elucidou. – Eu a amo.

- Sua vida vai melhor do que a minha.

Laurence deu um sorriso estranho.

- Você é jovem. Diga isso novamente daqui a trinta anos.

Laurence pousou o copo vazio sobre a mesa.

- Fica para o jantar? Eu tenho uma coleção impressionante de congelados. É o mínimo que posso oferecer.

- Eu gostaria, mas é melhor voltar logo para Manhattan. Talvez eu pegue a princesa da Disney antes que ela adormeça.

- Charlotte é uma boa moça, Abraham. Seja cuidadoso.

- O que quer dizer?

- Seu tato sentimental ainda não saiu do jardim de infância. Você já fez seus colegas chorarem por muito menos.

- Ela não aceitou a morte do pai?

- É complicado.

- Eu serei delicado como uma flor na primavera – prometeu Abraham.

Largou o copo e se levantou.

Sep. 3rd, 2009

            Charlotte acordou aquela manhã com o barulho do telefone e se surpreendeu ao perceber que já eram quase onze horas da manhã. Havia anos que dependia de estímulo químico para dormir e a noite anterior pedira por uma dose dupla de remédios, o que só contribuíra para seu sentimento geral de anestesia.

 

            - Charlotte? – fez a voz de Eric através da secretaria eletrônica. – Charlotte, eu sei que você está aí. Atenda...

 

            Ela o ignorou, incapaz de levantar a cabeça do travesseiro, enquanto meramente observava o aparelho de telefone. Quando Eric enfim desistiu, ela percebeu o visor de seu telefone indicando que haviam 38 mensagens na secretária eletrônica. Apagou todas antes de ouvir uma sequer. Já tinha ideia do provável conteúdo de cada uma delas, de qualquer maneira.

 

            Ela fechou os olhos mais uma vez, tentando se desligar de qualquer coisa que o mundo exterior pudesse lhe trazer e buscando uma paz que há sete anos não lhe pertencia mais. O telefone voltou a tocar e ela teimosamente tentou continuar em seu estado de transe. Impossibilitada de prosseguir, desligou o aparelho na tomada antes que a chamada pudesse se completar.

 

            Com um suspiro, desceu as escadas e atravessou, rumo à cozinha, a sala do apartamento na Central Park West com a 71 alheia ao mar de presentes que ocupava um bom percentual do aposento. Era a cobertura de um prédio antigo e suntuoso e, assim como a casa de Amagansett, um dia pertencera a seu avô, depois a seu pai. Agora, sete anos depois do desaparecimento sem explicações de Nathaniel Hayes, ela era oficialmente dona de tudo.

 

            Ela abriu a geladeira da cozinha e buscou uma dentre as várias garrafas de Coca-Cola 600 ml. Abriu uma e engoliu parte do conteúdo sem sentir o gosto, ou pensar em nada em particular. O barulho da porta de serviço abrindo lhe causou um leve sobressalto. Seus olhos se fixaram no vão que se abria, revelando Dolores.

 

            - Puta madre, Charlie! – Dolores exclamou, de braços cruzados e expressão de poucos amigos, e então, começou a falar em um espanhol intraduzível, o que era o sinal definitivo de que estava muito, muito irritada. – Eu te amamentei enquanto a sua mãe era uma vaca seca! E é assim que você me retribui? Es una niña muy mala y me vas a matar de un infarto!

 

Charlotte se deu conta de que Dolores provavelmente tinha pegado o trem de Amagansett até Manhattan aquela manhã com a única intenção de brigar com ela pessoalmente. Piscou os olhos, ainda atônita, enquanto Dolores terminava de xingá-la em língua estrangeira, que ela havia aprendido tão bem em momentos como este na infância. Finalmente a mulher pareceu ter se tornado capaz de voltar a falar inglês.

 

-  Pela virgem de Guadalupe, por que você fez isso? Nick era um menino tão bonito, tão importante! Eu deveria te espancar com a colher de pau, porque você ainda é uma criança cheia de vontades!

 

            Charlotte suspirou e deu um sorriso cansado e derrotado que fez com que o coração de Dolores amolecesse um pouco. A lembrança da outrora temida colher de pau de Dolores lhe trazia uma certa nostalgia.

 

            - Você não deveria se sabotar desse jeito, Charlie – disse Dolores, enquanto largou sua bolsa sobre a mesa e mirou a Coca-Cola de Charlotte com certo desgosto e a arrancou prontamente da mão da garota. – E agora que você não tem mais homem, é bom parar de tomar essas porcarias.

 

            Charlotte não reagiu. De alguma forma, a presença de Dolores, mesmo colérica, era reconfortante.  Dolores jogou o restante da Coca-Cola na pia, enquanto percebia com desgosto o conteúdo abandonado na pia da casa. Ela se pôs a lavar a louça com impressionante habilidade.

 

            - Cinco dias – Dolores resmungou, ainda bufando. – Faltavam cinco dias para esse bendito casamento. Eu devia ter previsto. Eu devia ter te trancado para te impedir de fazer uma besteira dessas na sua vida. Eu devia... – virou para Charlotte. – Você está um lixo. Seu rosto está imundo de maquiagem. Vá tomar um banho agora porque não quero ver sua cara ou vou querer bater nela com a colher de pau.

 

            Charlotte obedeceu sem discutir. Dolores escutou os passos da garota subindo as escadas enquanto terminava de lavar a louça, balançando a cabeça fervorosamente. Aquela manhã, sem aviso ou explicação, deparara-se com a notícia dominando o Page Six do New York Post, possivelmente o maior escândalo da história social de Nova York ou até dos Estados Unidos nos últimos anos: a cinco dias da cerimônia de casamento – a muito antecipada e milionária cerimônia de casamento organizada para 800 convidados no Plaza que uniria a órfã de um bilionário ao filho de uma das mais antigas dinastias políticas do pais –  o casamento de Charlotte Hayes e Nick Brandon fora simplesmente cancelado. Dolores conhecia Charlotte bem demais para saber da única origem possível para esse fim e se sentia extremamente irritada com isso.

            Terminada a louça, Dolores foi examinar os presentes de casamento largados na sala. Era uma infinidade de cristais, prataria, porcelanas, esculturas em bronze e utensílios domésticos dos mais criativos e desnecessários.  A enorme caixa da Maison Oscar de la Renta com o vestido de noiva que jamais seria utilizado jazia entre as centenas de presentes. Dolores retirou o vestido da caixa e o examinou, com ar de nostalgia e decepção. Ela própria, que jamais pudera se casar vestida de noiva, sempre sonhara com o dia em que veria Charlotte subir ao altar.

 

            Charlotte  desceu após alguns minutos, de roupão e cabelos molhados.

 

            - Você estava bêbada quando fez isso? – Dolores demandou imediatamente.

 

            - Não – Charlotte se fez responder, e a voz saiu rouca, pois era a primeira palavra que havia pronunciado desde que acordara.

 

            - Me diga por quê, menina estúpida – Dolores perguntou. – Por que você fez isso?

 

            Charlotte apenas balançou a cabeça.

 

            - Foi um erro.

 

            - Não diga uma coisa dessas ou eu acerto a sua cabeça com meu sapato. Um rapaz tão bom, tão inteligente, tão bonito.

 

            - Ele é.

 

            - E por que você não quis mais se casar com ele?

 

            Charlotte baixou a cabeça.

 

            - Não há nada de errado com que você seja feliz, Charlie – Dolores pareceu, finalmente, menos dura. – Nate sumiu porque não tinha juízo algum naquela cabeça de vento dele. Agora você não pode viver a sua vida se lamentando pelos cantos por conta disso. Diga para a sua Dolores, como você está se sentindo?

           

- Eu não sinto nada – Charlotte deu um sorriso seco, sem júbilo. Era algo que horrorizava Dolores, perceber como os olhos de Charlotte há muito haviam se tornado vazios e sem vida. Ela ainda se lembrava com saudades da criança audaciosa e incorrigível que Charlotte havia sido. – Em relação a nada.

 

Dolores balançou a cabeça novamente e lançou um olhar pesaroso sobre os presentes.

 

- Vamos ter que devolver todos esses presentes agora. Tanta coisa bonita. É realmente uma pena.

 

Charlotte deu de ombros.

 

- Você precisa ver de que loja cada presente desses foi enviado, para que os convidados possam ter o dinheiro de volta.

 

- Esses presentes não têm cartão? – a garota perguntou, demonstrando pouco interesse. – Só contrate alguém que possa devolvê-los a quem quer que os tenha enviado. Eu não conheço essas pessoas, de qualquer maneira.

 

Dolores balançou a cabeça, em desaprovação.

 

- Você deveria escrever cartões para essas pessoas. É o que deveria fazer – ergueu um balde de gelo cravejado de brilhantes. – Olhe isso. Este balde deve custar mais caro que a anuidade de Truman na NYU.

 

Charlotte mirou o objeto com desinteresse, mas nada disse.

 

- Só arrume alguém que possa sumir com essas coisas daqui, Dolores – disse Charlotte. – Se quiser enviar cartões em meu nome, eu não me importo.

 

Dolores respirou fundo, irritada.

 

- Nick era um rapaz ótimo, inteligente, culto, bem educado, um broto. Por ele eu até votaria republicano – Dolores se pôs  resmungar, enquanto revirava os presentes, à procura dos nomes e cartões dos remetentes. – Homem assim você não encontra em qualquer lugar, não. Um dia você vai ver.

 

Charlotte não deu importância às lamúrias de Dolores. Ela andou distraidamente pela sala, olhando os presentes sem muita atenção, os pensamentos em outro lugar. Cada presente parecia mais luxuoso e caro que o anterior, em uma espécie de competição silenciosa entre os convidados para medir quem seria capaz de dar o presente mais dispendioso. Seus olhos se focaram subitamente em um objeto verde estranhamente familiar. Ela se aproximou, incerta. Seria possível que aquele objeto fosse o que ela estava imaginando? O cartão – enviado no papel de carta de Yale – fez com que não restassem dúvidas.

 

- Você convidou o Laurence para o casamento? -  Charlotte quis saber, sem exatamente estranhar o fato, mas reconhecendo que era algo que fazia parte de um conjunto de lembranças que ela buscara reprimir.

 

            Dolores lhe lançou um olhar de reprovação.

 

            - Claro que chamei. Ele é o seu padrinho, Charlotte.

 

            Charlotte havia se esquecido desse fato. A verdade é que Nathaniel, sendo ateu, nunca fizera questão de que ela fosse batizada, mas Dolores tinha tanto horror a que a criança acabasse pagã que encheu a paciência dele durante meses a fio, até que ele finalmente se deu por vencido e chamou, alem da própria Dolores, seu antigo professor da universidade para o batismo. Laurence Hamlin havia sido mais que um professor para seu pai, Charlotte sabia. Ele havia sido a fonte de inspiração para todo o trabalho que Nate realizara no Instituto, a pessoa que despertara todo o seu interesse na história, nas artes e na busca por um legado para o mundo. O pensamento fez com que Charlotte sentisse seu estômago revirar levemente.

 

            Ela pegou o vaso com as duas mãos, uma suave nostalgia invadindo sua mente. Não era uma antiguidade preciosa e certamente não tinha o mesmo valor de mercado de metade das frivolidades que lhes haviam sido enviadas, mas era verdadeiramente algo com significado para ela. Ela lembrava daquele vaso chinês de jade que ocupara o escritório de Laurence em Yale durante anos, e que durante boa parte de sua infância ela fantasiara ser uma relíquia pertencente a algum antigo imperador da dinastia Zhou ou Qin. Ficara ligeiramente decepcionada quando descobrira que não se tratava de nada com grande valor histórico: era apenas um presente que seu pai, ainda enquanto estudante, trouxera para o professor de suas férias na China, mas, de algum modo, o vaso nunca deixou de exercer um certo poder de mistério e fantasia de infância sobre ela. O valor histórico dele residia na sua própria história, e de seu pai.

 

            Charlotte sentiu o coração bater forte e as bochechas formigarem. Era quase como se pudesse chorar, mas ela sabia que não poderia. Era como se, de alguma maneira, algum pedaço de seu pai pudesse ser sentido naquele vaso que um jovem Nate comprara de presente para o professor favorito. E também um pedaço da criança impressionável e hiperativa que ela fora um dia.

 

            - Laurence enviou para você esse vaso verde? – Dolores interrompeu o estado de estupor de Charlotte. Seu tom de voz continha um pouco de desprezo. Ela nunca entenderia.

 

            Charlotte assentiu. Sem aviso, ela subiu as escadas correndo, com o vaso na mão. Dolores a observou, sem entender. Mas ela decididamente entendeu menos ainda quando, pouco depois, Charlotte desceu novamente, completamente vestida e, ainda com o vaso na mão, se dirigiu até a porta e saiu.

 

            - Onde você está indo? – Dolores gritou enquanto corria atrás da garota, abrindo a porta que ela acabara de fechar. – Charlotte!

 

            Mas ela já havia saído.

             A porta da cela abriu-se com um clique. Por trás dela, a oficial gorda que Charlotte havia mandado à merda minutos antes a encarava com um rancor velado. A menina se levantou com um sorriso cínico e se encaminhou para a recepção, onde lhe permitiram reaver seus pertences. Sabia que estava segura e ninguém poderia encostar nela. De qualquer maneira, toda a situação lhe parecia excessivamente ridícula e além do necessário. Ela tinha, afinal, dezoito anos. Em qualquer outro país do mundo isso não teria sido considerado normal. Mas estavam na América.

 

            Encontrou o pai, o rosto lívido, esperando por ela. Havia quase dois meses que não o via, mas, ainda assim, foi a única pessoa para quem ela poderia ter ligado. Ele a agarrou pelo braço com força e ela não esboçou reação. Foi praticamente arremessada no banco do carona. Em silêncio, ele assumiu a posição de motorista. Percebeu que o pai continuava com o olhar fixo na estrada que os levavam até a casa de Amagansett. Ela cavucou a pequena bolsa carteira atrás de um cigarro. Acendeu-o e tragou, soltando a fumaça através da pequena fresta que abrira na janela do carro.

 

            - Jogue essa merda fora – fez o pai, em uma voz contida, mas agressiva. – Agora.

           

            Prontamente, Charlotte apagou o cigarro na lateral do banco de couro que ocupava. Imediata e bruscamente, Nathaniel parou o Navigator no acostamento. Sua expressão passiva havia totalmente se transfigurado. Por um momento, Charlotte sentiu medo, mas não demonstrou.

 

            - Você não é a porra da Paris Hilton – ele disse. – Você é a minha filha. E deveria agir como tal, ou eu juro...

 

            - O quê? – ela questionou, se sentindo subitamente corajosa. – Você jura o quê?

 

            - Que eu arrebento essa sua cara antes que você ouse me envergonhar de novo – ele pressionou as bochechas dela com apenas uma mão. – Respeito faz bem para os dentes.

 

            Ele a largou e ela massageou o rosto.

 

            - Eu odeio você – ela anunciou, mas não conseguiu imprimir o rancor necessário.

 

            - Claro que sim – ele retrucou, e reajustou o carro na marcha D.

 

**

 

Charlotte acordou por conta da claridade vinda das janelas que Dolores acabara de abrir em seu familiar quarto da casa de praia em Amagansett. Ainda sonolenta, mirou a empregada sem entender o que estava havendo.

 

- Sinto muito, Charlie – ela explicou. – Ordens do seu pai.

 

Dolores apontou com o queixo a pequena pilha sobre a mesinha de cabeceira. Após alguns segundos de reflexão, Charlotte reconheceu a pilha como seus cartões de crédito picados em pedaços, juntamente aos restos de sua carteira de motorista.

 

- Ele fez isso? – Charlotte quis saber, em tom calmo. – Que imbecil.

 

Dolores lhe lançou um olhar de reprovação. A garota deu de ombros e pulou para fora da cama. Ela realmente não se importava em dirigir sem carteira de motorista por algum tempo, e, de qualquer maneira, a secretária de seu pai encomendaria cartões novos em tempo recorde. Clássico.

 

Ela desceu as escadas até a cozinha e encheu uma tigela  até a boca de  Fruity Cheerios e leite. Embora fizesse já tempo que não vinha a Amagansett, ela jamais deixara de se sentir em casa.  Truman, o filho caçula de Dolores, entrou na cozinha com um laptop e um sorriso imenso no rosto.

 

- Olá, Charlie – fez o menino.

 

- Olá, Truman – ela retrucou. -  O que você está aprontando?

 

 

Ele apoiou o laptop sobre a mesa da cozinha, incapaz de conter os risos. Charlotte virou o computador para si, para entender o motivo de tanta graça. E então, viu que estava no site da OK Magazine. Ou, melhor, suas fotos sendo fichada na delegacia. No topo do site, a notícia: “Filha de bilionário é presa por beber antes da maioridade”.

 

Ela sorriu, a boca ainda cheia de Fruity Cheerios e leite.

 

- Eu estou bonita? – ela perguntou, de boca cheia.

 

Truman arregalou os olhos para ela. E então, em um tom de dono da verdade, respondeu simplesmente:

 

- Não.

 

Charlotte lhe mostrou a língua. E então, algo lhe ocorreu:

 

- O que você estava fazendo no site da OK Magazine, bichinha?

 

- Uma amiga minha me mandou o link pelo MSN.

 

- Certo, bichinha.

 

- Eu não sou bichinha! – Truman gritou, irritado, o que só fez Charlotte rir mais, já que, aos 10 anos, a voz do menino ainda era muito fina.

 

Charlotte terminou de raspar sua tigela de Cheerios com calma, enquanto Truman terminava de se esgoelar. Então, voltou a ele sua atenção.

 

- Bichinha, eu concedo voltar a te chamar pelo seu nome de batismo se você me vencer no Street Fighter. Você continua jogando com a Chun-Li?

- Eu nunca joguei com a Chun-Li – Truman argumentou, irritado. Charlotte ainda ficava maravilhada com a facilidade de irritar crianças pequenas. – Mas vencer você vai ser fácil como tirar doce de criança.

 

- Espero que você tenha praticado, bichinha.

 

            **

 

            Cinco partidas de Street Fighter depois, e nenhuma vitória para Truman (que, para provar a teoria de Charlotte falsa, escolhera jogar com o Zangief, o personagem mais musculoso do jogo), a porta da sala de jogos se abriu e por ela passou Eric, o outro filho de Dolores. Ele mirou Charlotte com estudado descaso.

 

            - Olá, filha do patrão.

 

            Charlotte deu pause no Super Nintendo. Apesar de antigo, ainda era seu vídeo game favorito.

 

            - Meu querido garoto da cozinha – ela retrucou. – Ouvi dizer que o garoto da cozinha foi aprovado em Columbia. Meus parabéns!

 

            - Obrigado – disse ele. – Ouvi dizer que o seu destino não foi tão brilhante quanto o meu e que você virou uma puta de dez dólares. Ou é o que dizem os rumores.

 

            - Se eu estiver realmente faminta, na verdade, troco os meus favores por um Triple Whopper e uma coca – ela retrucou, sorrindo. – Esse seria o caso agora, caso você esteja interessado.

 

            - Não, obrigado – ele riu, e então, sua expressão assumiu um tom ligeiramente sério. - Nós todos ficamos muito preocupados, Charlie. Especialmente o seu pai.

 

            Charlotte deu de ombros.

 

            - Eu estava bem. Só passei um tempo com Vanessa. Também não deu muito certo. Mas meu pai sabia exatamente onde eu estava.

 

            - Não se trata de saber onde você está, Charlie. Isso é sobre como você está.

 

            - Não se preocupe comigo, garoto da cozinha – ela sorriu. – Estou bem. Viva e chutando. E chutando feio a bunda do seu irmão no Street Fighter.

 

            E então, ela voltou-se, gloriosa, para a tela da televisão. Para seu choque, porém, Truman havia voltado o jogo e acabara de liquidar seu Blanka enquanto ela conversava com Eric.

 

            - Isso é alguma espécie de trato entre vocês dois? – ela perguntou a Eric.

 

            Truman largara o controle e começara a pular como um maníaco no sofá. Charlotte rapidamente o derrubou de bruços sobre as almofadas e o imobilizou.

 

            - Diga arrego.

 

            - Arrego!

 

            - Diga: eu sou uma bichinha traiçoeira!

 

            - Não!

 

            - Eu não tenho pressa.

 

- Eric! – ele apelou ao irmão.

 

Mas Eric não se importava e havia deixado o quarto. Charlotte resolveu mudar de método e tentar matar o menino de cócegas. Era realmente golpe baixo.

 

- Diga.

 

Entretanto, antes que ele pudesse ceder, a figura de seu pai entrou no aposento.  Ele estava com uma expressão de poucos amigos.

 

- Solte o garoto, Charlotte.

 

Ela soltou Truman, que saiu correndo tão logo pôde, passando por Nate. Antes de sumir totalmente do campo de visão de Charlotte, mas fora do campo de visão do dono da casa, porém, lhe mostrou o dedo do meio. Ela ficou tentada a retribuir, entretanto, alguma coisa na expressão de seu pai fez com que se contivesse.

 

- O que foi? – ela perguntou, cruzando os braços.

           

- Truman tem dez anos.

 

- E daí?

 

Nathaniel não respondeu. Era algo que ele fazia quando achava que a pergunta não merecia resposta e isso irritava Charlotte de alguma maneira.

 

- Eu quero falar com você – ele avisou, com calma. – Suba para o meu escritório em quinze minutos. Vou fazer uma ligação antes.

 

            Charlotte assentiu, mas não se sentia feliz. Conversas no escritório do pai tendiam a ser grandes sermões aos quais ele se tornara propenso desde que atingira a meia-idade. Aos 45 anos de idade, Nathaniel Hayes teria, finalmente, se tornado um pai como o das outras pessoas?

 

            Seu estômago roncou. Quinze minutos seriam tempo o suficiente para que fizesse um rápido pit-stop na cozinha. Ela daria um troco pelo abuso de Truman, mas não imediatamente. Foi à dispensa e buscou um pacote de Oreos. Charlotte tinha todo um método próprio e ritual específico para comer seus Oreos: ela primeiramente despejaria todos os biscoitos do pacote em uma travessa e teria uma travessa vazia idêntica ao lado. Então, abriria os biscoitos, um por vez, e rasparia com os dentes da frente apenas a parte branca.  O resto era despejado na tigela vazia. Era como o paraíso deveria ser.

 

            Em seu total estado de transe e êxtase, ouviu Eric abrindo a geladeira. Em seguida, ele se sentou opostamente à ela na mesa, com uma maçã na mão.

 

            - Pare de fazer isso – ele avisou.

           

            Ela lhe lançou um olhar, enquanto continuava a comer apenas a parte branca dos Oreos.

 

            - Por que você nunca come a porcaria do biscoito inteiro? – o garoto perguntou, enquanto mordia sua maçã.  Como ele ainda não havia se acostumado?

 

            - Você por acaso come a concha das ostras?

 

            Dolores surgiu no batente da porta.

 

            - Seu pai pediu para que você subisse agora– ela anunciou.

 

            Charlotte lançou um breve e desanimado olhar para os Oreos que ainda estavam intactos.

 

            - Mas ainda não passaram quinze minutos – ela argumentou, inutilmente, e, então, com um suspiro, se levantou, buscou uma garrafinha de Coca-Cola de 600 ml na geladeira e subiu.

           

**

            O escritório de Nathaniel na casa de Amagansett não era muito diferente do que fora o escritório do pai dele décadas antes, ainda todo recoberto em mogno e livros antigos e com as enormes janelas envidraçadas que davam para a praia. Era o único aposento da casa cuja decoração havia sido mantida desde sua aquisição na década de 60, exceto por uma ou duas antiguidades que o pai levara para lá: a maioria, porém, ficava no Instituto. Charlotte gostava do escritório e, quando pequena, gostava de fazer pequenas expedições até lá com Eric para fuxicar os documentos e anotações do pai. Entretanto, suas recordações de conversas no escritório não eram as melhores.

 

            - Oi – ela se anunciou, desgrudando a garrafa de Coca da boca momentaneamente.

           

            O pai ergueu os olhos do grosso caderno de couro no qual escrevia e mirou Charlotte rapidamente. Ela reconheceu aquele caderno como O Diário. O Diário era o caderno misterioso do pai, onde ele fazia sobretudo anotações sobre expedições, ou, ao menos, era o que contava. Quando pequena, muitas das expedições de Charlotte ao escritório foram atrás d’O Diário, mas ela nunca conseguiu encontrá-lo longe do pai. Nathaniel não fechou o caderno, como jamais fazia, e o afastou um pouco para a direita.

 

            - Sente-se, Charlie.

 

            Ela sentou, como de hábito, com as pernas cruzadas em uma versão desgrenhada da posição de Lótus sobre uma das antigas cadeiras acolchoadas, também da época de seu avô.

 

            - O que você quer? – ela perguntou.

 

            Nathaniel tirou um envelope da gaveta e o jogou para ela. Já estava aberto, ela notou. Era sua carta de aceitação para Harvard. Ela tomou mais um gole de Coca enquanto relia rapidamente a carta, que havia chegado no início do ano.

 

            - E daí? – perguntou, sem emoção.

 

            - Não estrague as coisas – o pai respondeu, simplesmente.

 

            Charlotte franziu o cenho e largou a carta displicentemente sobre a mesa de mogno.

 

            - Eu não sei que merda anda passando na sua cabeça, Charlie, mas eu não quero que arruíne seu futuro.

 

            Outro gole de Coca. Charlotte pareceu pensativa.

 

            - Você está falando do incidente de ontem? Você não pode realmente levar a sério o incidente de ontem...

           

            Mais uma vez, ele não disse nada, poupando palavras. Ela suspirou. Sabia que ele se referia aos últimos dois meses de  rebeldia dela, vivendo com Vanessa na cidade e aparecendo semanalmente no Page Six. Era realmente miraculoso que a aceitação dela não tivesse sido revogada. O pai provavelmente deveria ter feito um bom trabalho com o decano e isso definitivamente não deveria ter saído nada barato.

 

            - Suas aulas começam em setembro – ele começou. – Eu viajo esta noite ainda. Vou ficar um bom tempo fora.

 

- Por quê?

 

Nathaniel revirou os olhos e, mais uma vez, não respondeu. Charlotte sabia que as expedições eram uma constante na vida dele. Quando pequena, ele a levaria às vezes para o Egito, Grécia, Peru, ou onde quer que houvesse uma escavação ou expedição que ele não considerasse nociva ou passível de que uma criança atrapalhasse.

 

- Quanto tempo? – ela mudou a pergunta, a fim de que ele pudesse se dignar a dar uma resposta dessa vez.

 

- Quatro ou cinco meses, talvez, ainda não sei ao certo. O fato é que não vou estar aqui para te arremessar à força dentro do dormitório da faculdade, mas eu realmente espero que algum juízo entre na sua cabeça e você não me decepcione.

 

            Ela assentiu. Dois meses depois de seu surto inicial de loucura, ela, de alguma forma, via razão no pai. Mas não daria o braço a torcer tão facilmente.

 

            - Veremos – disse ela.

 

- Vou confiar que você fará a coisa certa.

 

Ela assentiu, enquanto, propositalmente, se focou no restante de Coca-Cola de sua garrafa, mas Nathaniel conhecia a filha bem o suficiente para saber que ela estava do lado dele.

 

- Vou precisar ir embora – ele anunciou, e se levantou. – Vou partir diretamente do Instituto. Minhas coisas já estão lá.

 

            Charlotte assentiu e largou a garrafa vazia sobre a mesa. Foi com surpresa que ela notou que o pai a puxara para um abraço de reconciliação, despedida, ou talvez as duas coisas. Ela retribuiu, um pouco atônita. Nunca fora muito o estilo de Nathaniel ter qualquer demonstração de afeição.

 

            - Boa viagem, pai.

 

            Ele assentiu. Bagunçou os cabelos loiros dela, como fazia quando ela era pequena, bem do jeito do que se faria a um cachorro. Ela sorriu. Não tinha percebido, mas sentira falta daquilo nos últimos tempos. Com Vanessa, as coisas eram muito diferentes. Ele reuniu rapidamente alguns pertences, incluindo O Diário, e os colocou dentro de uma pasta.

 

            - Até breve, Beavis – ele disse, e saiu pela porta.

 

Charlotte permaneceu em sua cadeira mais um tempo, os pensamentos em outro lugar. Então, percebeu os grandes óculos de aviador Ray-Ban  de estimação do pai sobre a mesa. Ela correu para o quarto em frente ao escritório, cuja janela dava para a saída de carros da casa, a fim de avisá-lo. Teve tempo apenas de ver o Navigator partindo. Charlotte não sabia ainda, mas aquela era a última vez em que veria o pai.

**